Carmel Sepuloni: o novo trunfo dos trabalhistas neozelandeses

Novamente uma mulher, como era a anterior primeira-ministra, mas desta vez herdeira dos povos autóctones do Pacífico. Juntamente com o novo primeiro-ministro, terá como desafio fazer esquecer a inesperada saída de Jacinda Ardern.

O pai chegou da Samoa à Nova Zelândia em 1964 sem saber falar inglês, foi trabalhador de um matadouro e coletor de frutas e por certo não estaria nos seus horizontes que a filha, Carmel Sepuloni, alguma vez chegasse a um lugar de destaque. Mas chegou: é a nova vice-primeira ministra do novo primeiro-ministro neozelandês, Chris Hipkins, e está a cumprir tudo aquilo por que o que terá sido escolhida: entre outras coisas, para sublimar o choque que constituiu a saída de Jacinda Ardern.

“Pensar que o meu pai poderia vir para cá para trabalhar, casar-se com a filha de um criador de ovelhas e ter uma filha que se tornaria vice-primeira-ministra da Nova Zelândia é muito difícil de compreender. Mas, como podem imaginar, está muito orgulhoso, disse a filha sobre o pai, citada por quase todos os jornais do mundo.

Carmel Sepuloni foi ministra do Desenvolvimento Social e é a primeira vice-presidente a ser oriunda de uma ilha do Pacífico (e a terceira mulher a ocupar o cargo) mas agora tem, juntamente com o novo primeiro-ministro, uma tarefa bem mais difícil: reconquistar os eleitores do Partido Trabalhista. Em conferência de imprensa conjunta, Sepuloni disse que apoiará Hipkins em todas as circunstâncias e que sente preparada para o desafio que aceitou enfrentar.

Mas não deixou de relevar o facto de representar “gerações de neozelandeses com herança mista” e reconheceu a importância disso mesmo para as comunidades do Pacífico – tradicionalmente deixadas à sua sorte e sempre com grandes dificuldades de representação, como sucede um pouco em relação a todos os povos nativos em que alguma altura foram colonizados pelos europeus. “Como vice-primeira-ministra, continuarei focada em servir as nossas comunidades“ originais, disse na mesma ocasião.

Apontada como favorita para o cargo – mas apenas depois de um ‘concorrente’ ter descartado o lugar – Carmel Sepuloni foi eleita pela primeira vez em 2008 e serviu sob seis líderes do partido (Hipkins será o sétimo). Ao longo desses anos acumulou histórias que lhe construíram uma imagem de desembaraço e de pouco foco no que não é politicamente importante. Para os analistas, isso criou em sua volta uma aura que não podia passar despercebida ao Partido Trabalhista – de que foi porta-voz para questões de desenvolvimento social, assuntos relacionados com as ilhas do Pacífico, educação, crianças e deficiência.

Tornou-se ministra após as eleições de 2017, mas não foi por isso que deixou de causar brado com a forma desabrida como chamava a atenção para as causas que considerava justas. Por exemplo, atraiu forte controvérsia em 2018, quando passou um dia no Parlamento sentada numa cadeira de rodas, na tentativa de entender os desafios de acessibilidade e chamar a atenção para as necessidades do que vivem a precisar dela todos os dias. “Ofensivo”, “desrespeitoso”, disseram os conservadores – o que pouco terá afetado Carmel Sepuloni: em 2021, anunciou a criação de um gabinete específico para a deficiência – tinha ganho a guerra.

Nascida e criada em Waitara, a nordeste de New Plymouth, Carmel Sepuloni mudou-se para Auckland em 1996, obteve uma pós-graduação em Educação e trabalhou, entre outros coisas, na alfabetização dos mais desfavorecidos e deu aulas em Samoa – mantendo sempre o foco nas questões de igualdade.

O novo elenco governativo terá pela frente uma crise económica e financeira que não é tradicional na Nova Zelândia. O controlo da inflação parece estar no topo da agenda de Hipkins e de Sepuloni – com a contestação a subir de tom nos meses mais recentes. A dificuldade de o partido dar uma explicação lógica – ou pelo menos suficiente – para o abandono de Jacinda Ardern é uma dificuldade acrescida, com que o novo elenco governativo terá de lidar com especial cuidado, se não quiser perder as próximas eleições, que serão a 14 de outubro próximo. Até lá, vale a pena acompanhar duas coisas: até que ponto os trabalhistas conseguirão contrariar os conservadores; e até onde vão as aspirações políticas de Carmel Sepuloni.

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