Carreira no estrangeiro alicia médicos e engenheiros

São cada vez mais os portugueses que encontram no estrangeiro a oportunidade de progressão na carreira. Portugal evoluiu na formação, mas permaneceu estagnado na retenção do talento e nos ordenados.

Portugal é reconhecido pela qualidade do talento que produz. No entanto, face às condições económicas do país em comparação com os pares europeus, a dificuldade em atrair e reter talento condiciona as perspectivas das novas gerações, que, à semelhança das suas predecessoras, procuram no estrangeiro oportunidades para evoluir na carreira, ao mesmo tempo que querem assegurar um futuro mais próspero a nível financeiro. Médicos e engenheiros consultados pelo Jornal Económico confirmam, através das respectivas Ordens, dificuldades para evoluir e estimular a carreira. Dificuldades que os levam a emigrar.

Nos últimos dez anos saiu de Portugal quase um milhão de pessoas, segundo os dados do último Relatório da Emigração (2019), do Gabinete da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesa. Destes, 11% têm formação superior e, segundo Jorge Liça, vice-presidente da Ordem dos Engenheiros, durante esse período, “Portugal viu sair mais de 50 mil engenheiros que (agora)trabalham de forma estável fora do seu país. Este número é importante e representa uma sangria de talento que faz falta a Portugal”.

Embora o problema não seja apenas português, as condições oferecidas no estrangeiro são mais apelativas e dificultam a contratação e retenção dos profissionais qualificados, no caso, engenheiros, em território nacional.

As condicionantes ao sector da engenharia, no entender de Jorge Liça, agravam-se com o “acelerar da transição energética em resultado da escassez de combustíveis fósseis e da necessidade de reconstrução dos territórios afetados pela guerra na Ucrânia”.

O vice-presidente da Ordem dos Engenheiros acrescenta que os programas Next Generation EU/Planos de Recuperação e Resiliência aumentam as dificuldades por duplicarem “a vontade de investir em infraestruturas e industrialização dos países europeus. Faltarão engenheiros de todas as especialidades em toda a Europa”.

A perspectiva dos engenheiros converge com a dos médicos, outro dos sectores mais afectados pela saída de quadros especializados para o estrangeiro.

“A emigração no sector da Saúde existe porque os médicos procuram centros de maior qualidade e tecnologia que não foi implementada nos últimos dez anos em Portugal”, afirma Alexandre Valentim Lourenço, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos. Apesar de apontar a concorrência entre o Sistema Nacional de Saúde (SNS) e os privados como uma das principais dificuldades do sector, este responsável considera que o desenvolvimento das unidades de saúde em Portugal “está muito atrasada”. Concretamente, no SNS, “não tem sido possível reter a quantidade e a qualidade dos médicos, que têm naturalmente apostado mais na inovação, na sua qualificação e no seu progresso”.

As consequências para o sector, segundo Alexandre Valentim Lourenço, já são palpáveis e reflectem-se numa força de trabalho envelhecida. “Havendo menos talento nos hospitais públicos, menos médicos jovens e qualificados, perdemos o motor da inovação e da ciência. O motor dos jovens especialistas, que constituem muitas vezes os catalisadores da introdução de novas técnicas nos serviços, está a desaparecer”, afirma.

Cativar para a engenharia
De forma a amenizar ou, pelo menos, equilibrar, a balança entre a procura e a oferta no sector da engenharia, Jorge Liça deixa duas sugestões. A primeira, “coordenar com as instituições de ensino secundário e superior o aumento da sensibilização para as vantagens em ser engenheiro”. A segunda, Portugal adotar “estratégias de imigração familiar do Brasil e dos países da América Latina, potenciadoras de descendência que possa fixar-se em Portugal e contribuir para a inversão da queda demográfica”.

Progressão da saúde
Para Alexandre Valentim Lourenço existem três soluções que podem ajudar a travar a saída de médicos para o estrangeiro. A saber: concursos mais rápidos adaptados às especialidades de cada instituição; reduzir os tempos de espera de autorização para contratar do Ministério das Finanças;e modificar a carreira de modo a que haja mais dois ou três patamares para evoluir de forma gradual.

Para o responsável, “se não for assim, rapidamente encontram saídas profissionais nas instituições privadas ou no estrangeiro, que procuram intensamente médicos muito diferenciados”.

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