Carta ao Governo

O caráter político do elenco, as pessoas de confiança do primeiro-ministro, a vontade aparente de concretizar, aliados à entrada de fundos, merecem um voto de confiança e esperança.

Caro Governo,

Escrevo-lhe para lhe dar as boas-vindas. Finalmente chegou com algumas surpresas boas.

No dia 23 ficámos a saber que é, em termos de género, um governo mais diversificado do que os anteriores, com nove ministras em 17. De uma análise rápida dos CV, concluímos também que é muito qualificado com um número significativo de doutorados e mestres e que as suas qualificações são, na sua esmagadora maioria, adequadas às pastas ocupadas.

Também positivo é a sua juventude, com cerca de metade dos ministros abaixo dos 50 anos e quase metade destes abaixo dos 45. A esta juventude aliam-se duas escolhas menos jovens, mas de peso, pela experiência e relevância: a pasta da Economia e a da Ciência e Tecnologia são entregues a duas pessoas legitimadas pelo reconhecimento inegável nas áreas que vão tutelar. Foi também com satisfação que vimos que dez dos 17 ministros são uma novidade. Não porque tenhamos algo particular contra o anterior elenco, mas estávamos, de facto, a precisar de uma nova energia.

Confesso que no momento seguinte, o de conhecer os seus Secretários de Estado, ficámos menos animados. A diversidade de género desapareceu, com 2/3 de homens e 23 reconduções. Ainda assim, o caráter político do elenco, as pessoas de confiança do primeiro-ministro, a vontade aparente de concretizar, aliados à entrada de fundos, merecem um voto de confiança e esperança.

A guerra veio atrapalhar alguns planos e o Orçamento do Estado, que parecia escrito em pedra, vai ter de ser revisto. Não é uma primeira tarefa que invejemos ao seu ministro das Finanças, que vai ter uma das pastas mais difíceis e desafiantes deste mandato, já que o objetivo de controlo da dívida pública está agora mais custoso.

Ficamos igualmente satisfeitos com a coordenação do PRR pela ministra da Presidência, uma ministra que já provou a relevância do seu papel e que parece ter a capacidade para agilizar e coordenar a execução do plano.

Continuamos contudo expectantes relativamente aos caminhos da descentralização vs. uma visão do país toda centrada em Lisboa. Basta pensar que o aeroporto de Lisboa se discute entre localizações a sul do Tejo, quando 60% da população do continente está a norte da região de Lisboa e Vale do Tejo, e quando uma decente ligação ferroviária continua a tardar: o tempo do Porto-Lisboa é hoje idêntico ao de 1985.

Esperamos, contudo, que isto possa mudar e que possamos contar consigo para o que aí vem, bem mais difícil do que esperávamos. Com efeito, quando o parlamento foi dissolvido, acreditávamos que o grande desafio seria a recuperação pós-Covid e, de repente, temos uma guerra na Europa com o preço da energia a subir. Isto gera pressões adicionais na taxa de inflação que inegavelmente vão trazer pressões nas taxas de juro nominais. Teremos ainda o desafio adicional de com o diferencial de ritmo de crescimento entre a taxa de inflação e a taxa de juro, irmos enfrentar taxas de juro reais cada vez mais negativas.

Vai ter as mãos cheias. Mas espero que não se assuste, que perceba que para ultrapassarmos os desafios eternos da nossa economia, com crescimento muito morno e os desafios novos que apenas se adivinham, tem que ser ousado. Só com coragem política, criatividade, uma máquina ágil e a boa utilização dos fundos conseguiremos o salto estrutural de que precisamos há décadas.

Despeço-me desejando-lhe boa sorte e garantindo-lhe que pode (e deve) contar connosco!

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