Casa separa, casa separa

O Reino Unido nunca se empenhou no casamento, vincando sempre a sua independência, recusando vários presentes, decidindo por diversas vezes manter-se à margem de projetos comuns.

A situação do Reino Unido na União Europeia faz-me lembrar, com frequência, uma rubrica de um programa de humor que na década de 80 do século passado fez furor em Portugal: o programa exibido pela Rede Globo chamava-se “Viva o Gordo” e nele o famoso humorista Jô Soares (o Gordo) apresentava um conjunto de sketches que deliciavam os telespetadores.

Numa das rubricas, Jô Soares encarnava a personagem do Irmão Carmelo, um pároco que se recusava casar os noivos que lhe apareciam na Igreja, inventando sempre uma justificação para não celebrar o matrimónio, vaticinando um eterno casa separa, casa separa.

Em 9 de maio de 1950, Robert Schuman, ministro dos Negócios Estrangeiros francês, produziu um discurso no Quai d’Orsay que esteve na origem do matrimónio entre seis Estados europeus: França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.

O Reino Unido, convidado para integrar o lote dos nubentes, decidiu declinar o convite, enfatizando os benefícios de ser independente, a especial relação que mantinha com os EUA e o facto de liderar a Commonwealth. A boda, celebrada, com pompa e circunstância, em Paris, em 1951, contou, pois, apenas, com seis nubentes.

Poucos anos mais tarde, em 1957, procurando aproveitar os encantos da cidade de Rómulo e Remo, numa espécie de renovação mais aprofundada dos votos matrimoniais, os Seis voltaram a enviar um convite ao Reino Unido para se lhes juntar neste casamento poligâmico que tão bons resultados ia produzindo. Uma vez mais, os britânicos optaram por recusar a mão que lhes havia sido estendida.

Não contente com as sucessivas desfeitas que fizera aos seus parceiros, rejeitando o enlace, em 1960, em Estocolmo, o Reino Unido decidiu amigar-se com outros Seis tipos (Portugal, Suíça, Suécia, Noruega, Áustria e Dinamarca), criando uma espécie de união de facto a que deu o nome de EFTA.

Verificando que o casamento dos Seis primeiros corria de feição, enquanto a união de facto que havia promovido estava longe de alcançar os resultados desejados, o Reino Unido decidiu, arrependido, pedir que o deixassem juntar-se ao matrimónio, que havia, por duas vezes, recusado. Fê-lo em 1961 e em 1967. Magoados pelas negas que haviam recebido e desconfiados das verdadeiras intenções dos britânicos, que pensavam poder passar por destruir a harmonia que entre eles reinava, deixaram o Reino Unido à porta, recusando-se a acolhê-lo num matrimónio que parecia ter sido abençoado pelos deuses.

Só em 1972, depois do Reino Unido muito penar, os Seis decidiram abrir-lhe as portas dos seus corações, aceitando o seu pedido de se juntar ao casamento. A deslumbrante boda, realizada no início de 1973, acolheu, igualmente, irlandeses e dinamarqueses, e os Nove juraram amor eterno.

Não obstante, o Reino Unido nunca se empenhou, de alma e coração, no casamento, vincando sempre a sua independência, recusando vários presentes, decidindo por diversas vezes manter-se à margem de projetos comuns, fazendo questão de demonstrar a sua renitência em aprofundar o amor que unia os restantes membros desta comunidade tão atípica.

Na década de 1990, rejeitou embarcar na criação de uma moeda única, para além de se furtar a participar noutros empreendimentos, apelando à criação de uma Europa a la Carte do seu agrado desde o início. Chamado a atenção pelos seus parceiros de que num casamento os nubentes prometem ser fiéis, amar-se e respeitar-se, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias das suas vidas até que a morte os separe, decidiu pedir à população que se pronunciasse pela manutenção do matrimónio ou pelo divórcio.

No dia 23 de junho de 2016, depois de várias exigências, a que os seus parceiros foram cedendo, de muitos arrufos, que estes preferiram ignorar, informou os outros membros que desejava pôr termo ao casamento, uma vez que, apesar da idade, queria voltar a ser independente, seguir o seu próprio caminho, de nada valendo os pedidos que lhe fizeram vários familiares.

Afirmou que adoraria continuar a ser amiga dos ex-cônjuges, mas que, na verdade, nunca quisera, na verdadeira aceção da palavra, contrair matrimónio e que só o fizera por considerar que, de outra maneira, se poderia ter perdido numa indesejada solidão. Os Vinte Sete cônjuges responderam-lhe que iriam pensar se, no futuro, queriam manter algum tipo de laços com ela, apesar de ser difícil apagar os muitos anos que estiveram juntos.

Depois de várias conversas e reuniões, muitas das quais tumultuosas, chegaram, finalmente, a acordo sobre os termos da dissolução do matrimónio, embora não seja certo que o Reino Unido aceite plenamente os moldes em que este se processará.

Resta, pois, esperar para ver se iremos ter um divórcio por mútuo consentimento ou um divórcio litigioso, não se pondo de parte a hipótese de, à última hora, os britânicos ainda terem dúvidas sobre se devem efetivamente consumar a separação ou se, num futuro, mais ou menos longínquo, não se arrependerão da decisão tomada, procurando regressar ao leito nupcial no qual verdadeiramente nunca souberam se se queriam ou não deitar. Um casa separa, casa separa que prejudicará certamente a União Europeia, mas que, acima de tudo, não conseguirá fazer do Reino Unido a ilha idealizada por Thomas Morus na sua “Utopia”.

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