Censura e Marine Le Pen

Não consigo conciliar esta Europa, a nossa Europa, com uma França liderada pela extrema-direita. Estou certa de que no dia 24 a França fará jus aos seus valores fundacionais: liberdade, igualdade, fraternidade.

Hoje trago dois temas distintos mas da mesma natureza, que se prendem com os valores civilizacionais com que cresci e me habituei a ter por certos.

O politicamente correto entrou nas nossas vidas há uns anos largos, com a preocupação de regular algumas relações sociais e profissionais do ponto de vista de linguagem e da descriminação verbal e moral.

Estas regras de relacionamento pareceram-me extremamente úteis e, sobretudo à época, necessárias. Mas, como tudo na vida, o que é demais é exagero. Quando o politicamente correto se transforma em higienização da linguagem, em censura, na revisão de livros, filmes e textos fora do contexto histórico e cultural para não serem ofensivos a uma qualquer sensibilidade, algo está profundamente errado.

Se há um caso em que esta nova forma de censura se torna particularmente absurda é no humor. Nada, mesmo nada, deve estar fora do âmbito do que é gozável, ou acerca do qual se pode fazer humor.

Pode haver temas que não nos fazem rir, podem existir piadas que nos constrangem, pode haver comediantes que não têm graça nenhuma, mas qualquer forma de censura mascarada de uma qualquer superioridade moral ou da proteção de valores maiores é simplesmente inaceitável.

E mesmo quando as piadas são acerca de pessoas e não de situações, os limites a existirem são os da lei: se for difamação resolver-se-á no local próprio, se não o for, paciência!

Vi recentemente, na Netflix, o espetáculo ao vivo do Ricky Gervais: “Humanity”. Além de ter achado particularmente divertido é de uma enorme inteligência e uma lição de abertura, de capacidade de gozar com tudo, a começar consigo próprio. É de uma clareza brutal a mostrar que nada, mesmo nada, deve ser censurado no humor e que os valores da tolerância, da abertura e do respeito pela diferença não são beliscados quando se contam piadas com contexto e inteligência.

E por falar em valores, as eleições francesas são uma prova de fogo aos valores fundacionais europeus. Nas palavras da própria Marine Le Pen “Esta é uma escolha de civilização”.

Não sou uma fã de Macron. Fez promessas que não cumpriu em particular no que diz respeito à conciliação de um Estado mais liberal com justiça social. Foi aliás apelidado, por alguns, de “Presidente dos Ricos”, tendo por exemplo abolido o imposto de solidariedade sobre as fortunas e promovido uma reforma do código laboral favorável às empresas e empresários.

Mas todos estes aspetos são escolhas de política, passíveis de serem feitas mais à esquerda ou mais à direita, mas ainda assim dentro da estrutura civilizacional dos estados sociais de direito europeus.

Como disse, não gosto da política de Macron mas consigo conviver numa Europa onde ele é presidente. Já Marine Le Pen corresponde a uma extrema-direita que é aliada de Putin, e de que Salvini e Órban são outros bons exemplos. Se em qualquer cenário era mau, a Frente Nacional ganhar as eleições, no atual contexto de guerra entre a Rússia e a Ucrânia, uma vitória de aliados de Putin seria terrível e muitíssimo perigosa.

Não consigo conciliar esta Europa, a nossa Europa, com uma França liderada pela extrema-direita. A abertura, capacidade de inclusão, respeito pela diferença, valores humanistas de empatia e tolerância, são a matriz que nos guiou e que nos ajudou a construir o projeto europeu nos 77 anos do pós-guerra.

Estou certa de que no dia 24 a França fará jus aos seus valores fundacionais: liberdade, igualdade, fraternidade.

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