Centeno: Prolongamento do cenário de inflação trará uma “inevitável recessão”

O governador do Banco de Portugal diz que é “necessário de manter o espírito europeu de 2020”, pautado por uma coordenação entre a política monetária e a política orçamental e reforça o objetivo de fazer recuar a inflação para os 2% “o mais rápido possível”.

O governador do Banco de Portugal (BdP), Mário Centeno, alerta para uma “inevitável recessão” caso a inflação não seja travada. Numa intervenção pública no debate sobre o Orçamento do Estado para 2023 (OE2023), promovido pela Ordem dos Economistas, o ex-ministro das Finanças nota que o quadro macroeconómico atual “está cheio de incertezas” que obrigam a “manter o espírito europeu de 2020”.

Centeno falou à distância, já que participava no Conselho de Governadores do Banco Central Europeu (BCE), onde, diz, está “a cuidar da normalização da política monetária, com o objetivo de reduzir a inflação e em simultâneo procurar garantir a estabilidade económica e financeira”.

“O quadro macroeconómico atual está cheio de incertezas, associadas ao prolongamento da invasão atroz da Ucrânia e à dependência energética da Europa, onde a inflação elevada inflige uma pressão desestabilizadora. A prolongar-se este cenário de inflação trará incerteza, perda de confiança dos agentes económicos e uma inevitável recessão”, acautela o responsável máximo do regulador bancário português.

Centeno vai mais longe para recordar que o fenómeno inflacionário “começou por ser um fenómeno com origem na oferta, mas que se tem estendido para a procura, embora de forma ainda não generalizada” para explicar que a subida “generalizada, frequente e de grande dimensão” dos preços é já a norma, e não a exceção.

“Ainda que as expetativas de inflação se mantenham ancoradas no médio prazo, urge agir, de forma coletiva, para um objetivo que é comum: trazer o mais rápido possível a inflação para 2%”, sublinha.

A inflação, diz, é “apenas um sintoma”, mas importa atacar as origens do problema antes que este corroa “as bases do nosso sistema económico, que nas últimas décadas beneficiou da estabilidade de preços”.

Sem um controlo efetivo da inflação, considera o governador do BdP, “o comportamento dos agentes económicos trará uma recessão”.

Este efeito, explica, sentir-se-á desde logo nos salários, no emprego e nas poupanças. O objetivo do BCE, reforça, “é trazer a inflação para 2% no médio prazo”.

As palavras de Centeno surgem um dia antes da publicação, por parte do BCE, do Boletim Económico, e deixam a adivinhar uma nova mexida nas taxas de juro por parte do banco central antes do fim do ano. “A política monetária tem um papel fundamental na gestão de expectativas”, continua Centeno, que diz que “atuar sobre as taxas de juro reflete-se nas decisões de consumo e investimento, muitas vezes atuando sobre decisões passadas tomadas com recurso a crédito com taxas de juro variáveis”.

“Não agir teria um custo recessivo maior do que aquele que o aumento das taxas de juro provoca”, destaca. “Este é o cenário desafiante com o qual os portugueses se confrontam para 2023, e também, naturalmente, o Orçamento do Estado”.

Centeno diz ainda que, comparativamente com a Europa, “os dados mais recentes demonstram que Portugal é um dos países que mais cresce”. Em termos homólogos, refere, “fomos mesmo o país que mais cresceu face a 2021”.

Estes dados “surpreendem pela positiva”, admite. A ajudar, “o desemprego continua baixo e o emprego tem respondido positivamente em conjunto com os salários”, um cenário ao qual não assistimos em crises anteriores. “No curto prazo, as notícias são boas”, remata.

Efeitos nos preços, rendimentos e poupanças

Ainda assim, o “foco não pode recair apenas nas pressões salariais”, avisa. “É igualmente importante prestar atenção ao papel das margens de lucro neste processo inflacionário”.

“Um euro de salários pagos acima do que é compatível com a estabilidade de preços causa uma pressão igual na inflação à de um euro a mais nas margens de lucro das empresas.”

O problema da inflação, diz, torna-se assim “um tema coletivo” que “só será ultrapassado com o menor custo se tivermos a capacidade de agir coordenada e coletivamente sobre as pressões inflacionistas”.

Hoje, perante a inflação, as “almofadas financeiras respondem numa primeira fase, criando as condições para amortecer os efeitos recessivos da inflação”, considera, sem esquecer que, paradoxalmente, “podem constituir fatores de resistência à redução da inflação”.

“Do lado da política orçamental, qualquer tentativa de mitigação do impacto da redução do poder de compra nas populações deverá ser muito meticulosa”, acautela ainda. “Deve ser focada naqueles que mais sofrem, evitando medidas transversais que podem elas próprias ser fatores de sustentação dos aumentos dos preços e de prolongamento deste estado de aceleração da inflação”.

Contudo, o abrandamento do investimento é “uma das grandes preocupações que tenho”, diz o governador.

“O seu dinamismo não está a ter um comportamento tão claro e sustentável como teve nos últimos anos, em especial desde 2015, incluindo em 2020 durante o pico da crise pandémica. O agravamento dos custos de produção e de financiamento onera o investimento e o aumento da incerteza prejudica os processos decisórios. Com isso, sofre o processo de recuperação da economia”, avisa.

Sem esquecer que mais de três quartos do investimento provém de iniciativa privada, o governador do BdP considera que o OE2023 “tem uma palavra a dizer em termos de investimento e em especial do investimento financiado por fundos europeus”.

Sobre a taxa de execução do PRR, esta “tem estado muito abaixo do previsto, prejudicada, também, pela inflação do custo dos projetos”, diz ainda Mário Centeno. “Para 2023, espera-se que a prossecução das reformas no âmbito do PRR venha acelerar a utilização efetiva e eficaz dos fundos e a potenciar o investimento”.

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