Centro Social 6 de maio: resistência e tenacidade

A história do “Centro Social 6 de maio” nas Fontainhas, Amadora tem os heróis imaginados: as crianças que o frequentam, e umas heroínas improváveis, as irmãs missionárias dominicanas e, em especial a irmã Deolinda Rodrigues que dá o rosto ao projeto.

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Bairro das Fontainhas. Passaram 40 anos desde o tempo em que era prioritário realojar pessoas que vinham de África, e em particular de Cabo Verde, sem bens pessoais e culturalmente desenraizadas. Chegaram a um espaço onde rapidamente cresceu um grande bairro de lata. O objetivo inicial foi criar uma comunidade de acolhimento. Era necessário ajudar uma população maioritariamente analfabeta a organizar-se e desde logo a questão da alfabetização para a obtenção da 4ª classe foi a prioridade, diz a irmã Deolinda. Os anos 80 marcam uma viragem da situação do bairro para pior, com a crise à fome generalizada. As mulheres sustentavam a família com a recolha do papelão e as crianças ficavam no bairro com grande parte delas sem saber falar português – apenas crioulo – e o sucesso escolar era reduzido.

Nasceu a atual IPSS e, oficialmente o “Centro social 6 de maio”. O primeiro projeto foi acolher crianças, dar-lhes uma sopa e apostar ainda mais forte na educação. O centro nasceu com apoios comunitários e num contexto de uma “crise terrível” em termos económicos e sociais. A densidade populacional já era assinalável e os vários bairros degradados tinham aumentado. As crianças eram as grandes vítimas de toda a miséria e muitas delas com sete, oito, dez anos fugiam do bairro, iam para Lisboa e algumas chegaram a ser encontradas no Alentejo a fazer mendicidade. O drama das crianças foi mediatizado porque o transporte usado era o comboio, que passa próximo. Houve vários acidentes com crianças a morrerem ou a ficarem feridas com amputações.

O contexto – reforça a irmã Deolinda – era de “falta de identidade. As crianças não se sentiam cabo-verdianas, mas também não se reconheciam como portuguesas”. A resposta foi o “investimento na dimensão cultural, e um dos bons exemplos foi a criação do grupo das batucadeiras de Cabo Verde, e depois investiu-se na área social com a contratação de técnicos”. E o salto estava dado. A proposta de um projeto comunitário permitiu o alargamento com a valência de centro comunitário.

Hoje, os problemas do Bairro Estrela de África, do Bairro das Fontainhas ou do Bairro 6 maio estão ultrapassados. As demolições foram o resultado de realojamentos e da expansão das infraestruturas urbanas. As Fontainhas e toda a sua carga negativa desaparecerão definitivamente dentro de algum tempo e o centro comunitário poderá ter outro espaço e função. O futuro é ainda desconhecido. Diz a irmã Deolinda que a edilidade da Amadora ainda não tem futuro para o centro social. O realojamento está a levar ao desaparecimento do bairro mas, levantam-se outras preocupações. As pessoas que saíram foram as mais estruturadas em termos familiares. Procuram casa, adquiriram habitação e integraram-se mas, falta todos os outros. Hoje as resistentes irmãs dominicanas têm outras preocupações tão, ou mais complexas do que as vividas nos anos 70 no pós “25 de Abril” e os anos 80 da crise da fome. O bairro tem gente inscrita no realojamento (PER) mas está indocumentada, as entrevistas no Serviço de Estrangeiros (SEF) são difíceis. A Legislação de 1982 tornou tudo mais complexo, pois estipulava que quem nascesse a partir dessa data teria de ter nacionalidade dos progenitores e perdia a nacionalidade portuguesa.

Muitos dos que estão no bairro precisam de provar que não saíram de Portugal, quando muitos deles nem sequer frequentaram a escola e logo nada podem provar enquanto, a outros é pedido um registo criminal de onde nunca estiveram. A somar a estes dramas há todos aqueles que como reclusos deixaram caducar documentos e não se legalizaram, ou que têm documentos extraviados, ou que estão doentes ou que, simplesmente, deixaram cair os braços. Ainda outros que estão no bairro sem visto há anos e o recenseamento de 1993 para o realojamento deixou muitos sem casa por falta de documentos.

O centro social voltou às aulas de alfabetização para população que vem da Guiné-Bissau e de S. Tomé e a profissionalização do complexo faz com que a atividade escolar com crianças esteja em alta, potenciando o intercâmbio de culturas. As missionárias dominicanas têm uma equipa de mais de duas dezenas de colaboradores contratados e quase meia centena de voluntários. Aliás, a alfabetização é feita por estes últimos. O ensino de português é crucial para a integração no mercado de trabalho. A irmã Deolinda lamenta que o trabalho de ensino estivesse inserido no agrupamento escolar e havia reconhecimento oficial nas provas. Tudo foi alterado e, na atualidade, sem reconhecimento oficial do trabalho de ensino, os alunos se quiserem um comprovativo terão de se candidatar a exames. O bairro foi sendo demolido e foi aumentando a miséria social. Há forte consumo e tráfico de droga, diz a irmã Deolinda. Vem tudo de fora e está a criar um grave problema a nível de saúde pública.
A vitória está nas crianças. Este trabalho permitiu salvar muitas delas nas décadas de 80 e 90 e confessa a nossa interlocutora que “a parte pastoral com a catequese foi um apoio extraordinário” nesse objetivo. Hoje, a comunidade das crianças está protegida com creche pré-escolar, com um projeto comunitário para as crianças que veem da escola, e uma mediateca para os “tpc” com explicações individuais feitas por voluntários.

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