CEO dizem que seguradoras estão preparadas em termos de solvência para qualquer crise

As companhias de seguros são as maiores gestoras de ativos do mundo, por isso os presidentes da Fidelidade, Ageas, Tranquilidade e Liberty Europa estão mais preocupados com a forma como os investimentos serão feitos com as injeções externas que estão programadas chegar a Portugal do que com o impacto da crise nas companhias. No entanto há uns mais optimistas que outros.

CEO das seguradoras Fidelidade, Tranquilidade, Ageas e Liberty

O “Estado da Nação nos Seguros” foi o painel do Fórum Seguros, numa iniciativa promovida pelo Jornal Económico que reuniu os CEO da Fidelidade – Rogério Campos Henriques; Steven Braekeveldt – CEO da Ageas; o CEO da Tranquilidade/Generali – Pedro Carvalho e o Chief Information Officer (CIO) da Liberty Europa, Alexandre Ramos.

O painel começou pelo impacto da inflação que atingiu os 7,2% em abril (o valor mais alto em 29 anos). Recorde-se que a presidente do BCE admitiu a subida das taxas de juro já em Julho. Christine Lagarde diz que o agravamento das taxas acontecerá “algumas semanas” depois do fim do programa de compra de dívida. Outro tema que impacta é a subida dos juros soberanos e sobretudo o aumento do prémio de risco face à Alemanha.

Rogério Campos Henriques reconheceu que a indústria seguradora não está imune ao contexto macroeconómico, mas “tem uma resiliência acima da média. Já passámos por muitas crises e ainda cá estamos com níveis consideráveis de solvência”.

No curto prazo a subida das taxas de juros tem impactos múltiplos na economia e a volatilidade dos mercados daí decorrente “coloca alguma incerteza no nosso negócio”, disse o CEO da Fidelidade que reconhece não estar preocupado com o impacto da crise no sector porque “está muito bem preparado”.

“Mas se este cenário, que tem múltiplas incertezas, se transformar num cenário mais difícil do ponto de vista económico podemos sentir algum impacto no crescimento do negócio dos seguros”, reconheceu o presidente executivo da Fidelidade.

“Ainda há uma necessidade acrescida de proteção, e apesar das incertezas há ainda factores que nos permitem ser moderadamente optimistas, por exemplo, o facto de termos níveis de desemprego mínimos a nível histórico”, referiu Rogério Campos Henriques.

Já Steven Braekeveldt, CEO da Ageas, mostrou-se mais preocupado com o contexto macroeconómico e menos optimista que os seus concorrentes. Em jeito de ironia disse que os optimistas são menos bem informados que os pessimistas.

O CEO do grupo que detém a Médis mostrou-se preocupado com o problema logístico, de matérias-primas e de combustíveis. Temos a inflação que o CEO da Ageas admite que vai durar e acredita que o grande impacto negativo pode ocorrer, não em 2022, mas na segunda metade de 2023. “Como vamos segurar o que é que não é segurável?”, referindo-se ao impacto da incerteza em alguns sectores. Em causa, por exemplo, o revés da globalização e das cadeias de fornecimento. Portanto os desafios que o gestor vê pela frente são desafios da sociedade portuguesa perante o impacto do conflito no leste europeu.

Pedro Carvalho, presidente da Tranquilidade, na sua intervenção destacou que a subida da inflação vai fazer descer o rácio de dívida pública sobre o PIB, mas com os juros soberanos a subirem, o custo da dívida pública vai aumentar. “Vai ser preciso trabalhar para reduzir o défice para perto de zero (sem os juros da dívida) porque os encargos da dívida pública vão ser maiores em percentagem do PIB”.

O CEO da seguradora portuguesa comprada pela Generali falou das alterações ao nível da inversão da globalização e do estrangulamento das cadeias de fornecimento e do facto de isso fazer com que haja custos que vieram para ficar.

Pedro Carvalho está otimista com a injeção de capital e investimentos que Portugal vai beneficiar nos próximos anos. O CEO da Tranquilidade defendeu que o futuro de Portugal nos próximos cinco anos vai depender dos investimentos que forem feitos com os fluxos de dinheiro que chegarão ao país, ao nível do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) e do Portugal 2030 – ao todo mais de 60 mil milhões de euros –, mas também dos fundos de investimento que estão a ser canalizados para Portugal para investir no Imobiliário e Turismo. “Assim nós saibamos desburocratizar alguns desses projetos imobiliários e de turismo”, disse o CEO da seguradora. “Temos uma terceira dimensão, que é a subsidiação europeia da transição energética”, revelou o gestor acrescentando que “Portugal está particularmente bem posicionado, quer na área do hidrogénio, quer no solar, quer na área do lítio (…) são 10 a 20 mil milhões de euros que vão ser injetados na economia nos próximos quatro anos para o país fazer a transição energética”.

O presidente da Tranquilidade considera essencial usar esses recursos financeiros para reformar a economia portuguesa que é de pequena dimensão. O impacto destes investimentos vai ajudar ao emprego e ao crescimento económico, considera o gestor. O dinheiro que vai ser canalizado para Portugal tem uma dimensão significativa tendo em conta o tamanho do país, frisou ainda o CEO da Tranquilidade.

Recorde-se que as seguradoras são as maiores gestoras de ativos do mundo.

O CIO da Liberty Europa, Alexandre Ramos, reforçou que o setor segurador é “forte e mais inovador do que se pensa, mesmo antes da pandemia já o era”. Pelo que, “temos de ser optimistas, pois temos solvência, capacidade e resiliência”, disse. “Ser optimista não implica não ser prudente e não antecipar os riscos”, referiu ainda o CIO da Liberty Europe. “Os seguros são o suporte de uma sociedade”, disse o gestor.

Sustentabilidade nos seguros, um caminho a percorrer

Rogério Campos Henriques, da Fidelidade, lembrou que o setor não tem tradicionalmente uma grande pegada carbónica, mas “tem um papel de levar os clientes a terem comportamentos mais sustentáveis e aí há um caminho a fazer nos nossos produtos, nas nossas práticas de subscrição, e até nos nossos investimentos”.

Há um território natural das seguradoras “que é a sustentabilidade social”, disse o CEO da Fidelidade que admitiu que “não está suficientemente tratado em Portugal. Pois sabemos que temos problemas significativos de sustentabilidade em áreas como a saúde e a poupança face ao envelhecimento demográfico em Portugal e aos acréscimos de custos médicos”, disse o gestor que considera ser um problema crítico da sociedade.

O papel das seguradoras, segundo o responsável pela Fidelidade, é “sensibilizar as pessoas e apresentar soluções para enfrentar os desafios”.

Os Governos devem ter um papel mais ativo na sustentabilidade, defendeu o CEO da Fidelidade, que admite que a fiscalidade é uma das vias. Rogério Campos Henrique não descarta incentivos fiscais para incentivar a poupança ou a saúde.

“O nosso negócio é o futuro, nós existimos para preparar o futuro”, disse o presidente executivo da Fidelidade.

Steven Braekeveldt, CEO da Ageas, defendeu que a sustentabilidade deve ser uma agenda global e de toda a sociedade. “Temos de ter decisões para o curto prazo”, referiu ainda o presidente da Ageas, companhia que detém a Médis e a Ocidental.

O presidente da Ageas, que é belga, voltou a defender que a questão da poupança em Portugal é cultural. Steven Braekeveldt disse que o Estado não terá dinheiro suficiente para pagar pensões de reformas e por isso as pessoas têm de poupar. “É importante que nas escolas a literacia financeira ajude as pessoas a pouparem”, disse o CEO.

“Os meus pais ensinaram-me que as duas coisas mais importantes na vida são trabalhar e poupar”, contou Steven Braekeveldt que defende que ensinar a poupar devia fazer parte dos programas escolares.

Já Pedro Carvalho da Tranquilidade/Generali considera que as emissões de carbono deviam ser taxadas e as capturações de carbono deviam ser subsidiadas, citando Milton Friedman nessa convicção. Portanto o gestor defende que se acelere a taxação da emissões poluentes e subsidiação do oposto.

As seguradoras têm um papel importante e não é só na educação dos clientes, defendeu o gestor, acrescentando que “vai ter de haver a nível mundial, incentivos e discriminação – quer seja no consumo de capital ou na proibição da tomada de risco em empresas que contribuem para uma pegada ecológica muito forte”, disse Pedro Carvalho.

“Quando as empresas têm um determinado tipo de riscos climáticos não podem ter a mesma ponderação de risco de empresas que fazem exatamente o contrário”, disse o CEO da Tranquilidade.

“Outra dimensão muito importante tem a ver com os investimentos das seguradoras que na Europa gerem aproximadamente 11 triliões de ativos em euros. Esse dinheiro é gerido tendo em conta alguns critérios e riscos das empresas, mas se houver discriminação positiva e negativa em relação à forma como o consumo de capital é feito em função dos investimentos, esses montantes vão ser direcionados para áreas cujos reguladores consideram mais sustentáveis”, disse Pedro Carvalho.

As seguradoras têm um papel muito importante na sustentabilidade por ser um dos setores mais importantes no financiamento da economia.

“Quando não se financia as centrais a carvão ou não se investe em determinadas tecnologias elas acabam por morrer”, lembrou o gestor que frisou que se está a falar de uma transição energética e não de uma mudança overnight.

Por sua vez Alexandre Ramos, da Liberty, defendeu que a “equidade é uma oportunidade” no âmbito do ESG – Environmental (Ambiente), Social (Social) e Governance (Governança Corporativa): Aqui mais na componente social. “A sustentabilidade é um valor”, defendeu o CIO da Liberty Europa.

O gestor lembrou que na atual conjuntura de guerra, “há investimentos massivos que certos países estão a fazer em armas”, o que está a gerar uma mudança na perspetiva que temos do futuro.

Todos defendem que a cibersegurança é muito importante para a atividade das seguradoras, sem descurar os “velhos riscos” das catástrofes naturais.

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