Cerca de 0,9% do montante de novos empréstimos com garantia pública foi concedido a empresas totalmente zombie, diz BdP

Em suma, a peso das empresas totalmente zombie nos novos empréstimos com garantia pública e no stock de empréstimos que estiveram em moratória foi relativamente baixo, assegura o BdP.

No Relatório de Estabilidade Financeira de dezembro, o Banco de Portugal revela a proporção de empresas zombie em Portugal e, em seguida, analisa o acesso destas empresas a empréstimos com garantia pública e à moratória de crédito.

Em Portugal, tal como em muitos outros países, as empresas foram forçadas a encerrar ou reduzir o seu horário de funcionamento durante os períodos de confinamento. Em resposta, o Governo português adotou várias medidas de apoio, entre as quais a criação de linhas de crédito com garantia pública para novos empréstimos e a criação de um regime de moratória pública para os empréstimos já existentes. As sociedades não financeiras (empresas) apenas puderam aceder à
moratória pública, uma vez que não existiram moratórias privadas para as empresas.

Neste contexto, importa perceber que tipo de empresas beneficiaram destas medidas de apoio, diz o BdP. Terão os empréstimos com garantia pública sido concedidos apenas a empresas com modelos de negócio viáveis, ou será que estes contribuíram para o aumento da concessão de crédito às denominadas empresas zombie? E relativamente à moratória pública, que tipo de empresas acederam a esta medida de apoio?

No que toca a empresas zombie, empréstimos com garantia pública e em moratória durante a pandemia, e segundo o relatório verifica-se que “entre março de 2020 e junho de 2021, 54,8% do montante dos novos empréstimos bancários com garantia pública foram concedidos a empresas não zombie (empresas classificadas com base na informação disponível até 2019, antes da pandemia), enquanto nos novos empréstimos sem garantia pública esta percentagem foi de 52,9%.

Apenas 0,9% do montante de novos empréstimos com garantia pública foi concedido a empresas totalmente zombie, refere o Banco de Portugal no relatório.

Nos novos empréstimos sem garantia pública a proporção foi praticamente idêntica, cerca de 0,8%.

As empresas com indicador zombie inferior a 1 e superior ou igual a 0,5 obtiveram 38,4% do montante de novos empréstimos com garantia pública. Cerca de metade deste montante foi concedido a empresas com um indicador zombie superior ou igual a 0,8 e inferior a 1.

Os novos empréstimos com garantia pública foram assim predominantemente concedidos a empresas não zombie ou a empresas com um indicador zombie relativamente baixo. “Este resultado reflete a restritividade das condições de acesso aos empréstimos bancários com garantia pública”, lê-se no REF (Relatório de Estabilidade Financeira).

A percentagem de empresas zombie situou-se em 6,9%, em 2019, uma diminuição de 4 pp em relação ao pico atingido em 2014. Se usada outra metodologia a percentagem de empresas zombie foi de apenas 4,8% em 2019 (o que compara com 10,4% em 2012).

“Em 2019, 28,1% das empresas portuguesas situavam-se neste intervalo. Destas, 14,0% encontravam-se no intervalo entre 0,9 e 1, ou seja, estavam muito perto de serem classificadas como empresas totalmente zombie”, diz o REF.

A elevada percentagem de empresas neste intervalo é explicada, sobretudo, por empresas de reduzida dimensão com investimento líquido nulo. Pois, 9,3% das empresas registavam um indicador zombie situado entre 0,5 e 0,9.

À semelhança da definição binária, a percentagem de empresas com um indicador zombie acima de 0,5 tem vindo a diminuir de forma continua desde o máximo atingido em 2013 (36,1%), diz o relatório.

A redução do peso das empresas zombie é também visível no emprego e no ativo das empresas portuguesas.

O peso das empresas zombie no total do emprego desceu de 8,8%, em 2013, para 3,1%, em 2019, enquanto o peso das empresas zombie no ativo diminuiu de 7,7%, em 2013, para 2,9%, em 2019.

Estes resultados revelam ainda que as empresas zombie têm uma dimensão inferior à média das empresas portuguesas, uma vez que o peso destas no emprego e no ativo é menor do que no número total de empresas.

Os requisitos de acesso à moratória foram menos restritivos do que os associados aos empréstimos com garantia pública.

Não obstante, apenas 4,0% do stock de empréstimos que entrou em moratória esteve associado a empresas totalmente zombie (empresas classificadas  com base na informação disponível até 2019, antes da pandemia). Para as empresas com um indicador zombie superior ou igual a 0,5 e inferior a 1, esta percentagem foi de 53,2%.

Este resultado indica que o peso das empresas de menor qualidade nos empréstimos em moratória superou o peso das empresas de maior qualidade, diz o REF.

No entanto, “é também de salientar que uma percentagem significativa dos empréstimos sob moratória estava associada a empresas não zombie (37,3%)”.

Em suma, a peso das empresas totalmente zombie nos novos empréstimos com garantia pública e no stock de empréstimos que estiveram em moratória foi relativamente baixo, assegura o BdP.

“Não obstante, uma percentagem significativa destes empréstimos esteve associado a empresas quase zombie com um nível de “zombificação” elevado (indicador zombie superior ou igual a 0,5, e inferior a 1)”, refere o REF.

“Após o termo da moratória, tornar-se-á mais claro se estas empresas têm capacidade para retomar o reembolso regular dos seus empréstimos, se tal apenas será possível após uma reestruturação bem-sucedida das suas responsabilidades financeiras ou se haverá um aumento do nível de zombificação das empresas portuguesas”, conclui o relatório.

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