Chile elege hoje novo Presidente entre crise e redação de nova Constituição

O Chile realiza hoje a segunda volta das presidenciais mais relevantes deste século, num contexto de crise social e de um processo constituinte considerado o culminar da transição iniciada em 1990, finda a ditadura militar de Pinochet.

epa06396175 Supporters of former Chilean president and conservative candidate for ‘Chile Vamos’, Sebastian Pinera (not pictured), wait for results in Santiago, Chile, 17 December 2017. Pinera is the projected winner as 14.3 million Chileans cast their votes in the second round of the presidential election choosing between conservative candidate Sebastian Pinera and progressive Alejandro Guillier. EPA/Elvis Gonzalez

O Chile realiza hoje a segunda volta das presidenciais mais relevantes deste século, num contexto de crise social e de um processo constituinte considerado o culminar da transição iniciada em 1990, finda a ditadura militar de Pinochet.

Uma inflação galopante, um sistema de pensões descapitalizado e uma desigualdade acentuada pela pandemia de covid-19 são os principais desafios colocados ao próximo Presidente do Chile, país há dois anos mergulhado na mais grave crise das últimas três décadas, que deixou de ser o “oásis latino-americano” que era antes de outubro de 2019, altura em que se iniciaram os maiores protestos populares desde a ditadura.

Dois modelos antagónicos competem nas urnas pela mão do ex-líder estudantil de esquerda Gabriel Boric e do advogado de extrema-direita José Antonio Kast, pondo fim a 30 anos de alternância política entre os dois blocos de centro que partilharam o poder desde o final da ditadura militar de Augusto Pinochet, em 1990, o que faz deste ato eleitoral, juntamente com o referendo por uma nova Constituição de outubro de 2020, o mais importante da história recente do país.

Sistema de saúde universal e pensões de sobrevivência, feminismo e ambientalismo são as bandeiras de Boric, ao passo que Kast aposta no discurso anti-imigração, da família tradicional e do neoliberalismo.

Boric, de 35 anos e líder da Frente Ampla, representa a parte da sociedade chilena que quer “mudanças profundas” e que participou nos massivos protestos pela igualdade de 2019: quer melhores pensões, educação, saúde e põe muita ênfase no ambientalismo e no feminismo.

Kast, o candidato da extrema-direita, de 55 anos, é um católico fervoroso e pai de nove filhos, parte de um clã familiar que teve laços políticos com a ditadura de Pinochet, um regime com o qual se mostrou complacente em diversas ocasiões, e é mais favorável à manutenção do ‘statu quo’ e à colocação dos valores conservadores e da família no centro de tudo.

É contra o casamento para toda a gente e o aborto em quaisquer circunstâncias e propõe escavar uma vala na fronteira para impedir a entrada de imigrantes, o que faz recordar o controverso discurso do ex-Presidente norte-americano Donald Trump.

Segundo os especialistas, a eleição do sucessor do conservador Sebastián Piñera será decidida voto a voto, uma vez que caberá aos eleitores que na primeira volta votaram nos candidatos do centro, agora eliminados, escolher um dos dois ainda na corrida, e eles têm vindo a moderar o seu discurso por forma a captar esses votos em matérias como tributação e pensões.

Em termos económicos, a principal diferença entre Boric e Kast tem que ver com o papel do Estado: a perspetiva de Boric está alinhada com a de uma social-democracia europeia, que quer que o Estado garanta certos direitos, ao passo que Kast defende a preservação do atual modelo, muito marcado pelo papel mínimo do setor público.

Outro dos aspetos fundamentais será o futuro do processo constituinte, que arrancou em julho passado como via política para amainar a crise social de 2019: Boric tem mais espírito de cooperação, Kast é um cético da mudança constitucional e votou contra no referendo.

O novo Governo desempenhará um papel fundamental nesse processo, porque terá a seu cargo aspetos administrativos e orçamentais e poderá mesmo condicionar o resultado do referendo final de 2022, no qual os cidadãos chilenos deverão pronunciar-se sobre se aprovam ou não a nova Constituição do país.

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