Chile: Gabriel Boric enfrenta a sua primeira tensão com as ruas

Alguns sindicatos de camionistas conseguiram fechar as principais vias nacionais ao trânsito. O governo fala de falta de diálogo e de antecipação das manifestações para impedir esse diálogo. É o primeiro embate de um presidente de esquerda com reivindicações de esquerda.

Num sub-continente onde o poder das ruas (ou mais propriamente as manifestações que lá têm lugar) continua a ser uma prova de fogo para os governos, o presidente chileno Gabriel Boric (de esquerda) está a enfrentar o seu primeiro confronto político de envergadura, por conta das manifestações dos camionistas, que se queixam da falta de segurança das estradas.

Proprietários e motoristas de veículos pesados mantêm várias rotas do país fechadas ao mesmo tempo que clamam por maior segurança nas estradas, melhores condições de trabalho e a redução do preço do combustível. Como tem sucedido nos últimos anos, o aumento dos preços – nomeadamente em países onde a sobrevivência diária é precária para muitos – gera confrontos sociais e o aumento do preço dos combustíveis não pode deixar de estender o seu impacto a todos os bens transacionáveis.

Mas o governo de Boric dá mostras de não estar disponível para contemporizar com os manifestantes e exigiu a livre circulação em todo o país como ponto central de negociações posteriores. Aliás, a ministra do Interior, Izkia Siches, disse mesmo que a mobilização dos camionistas – que tem alguns sindicatos do sector por trás – não cumpriu o que estava acordado, o início das negociações, e partiu para as manifestações antes de se sentar para o diálogo.

“Temos trabalhado para encontrar soluções“, disse Siches, que lamentou que os manifestantes tenham optado por antecipar a mobilização e lembrou que “o nosso governo sempre esteve disponível para o diálogo e apesar de termos estabelecido uma base de trabalho com os mais importantes sindicatos de transportadores e camionistas, existem atualmente alguns que decidiram, antes das conversações, paralisar e cortar as estradas.

O Ministério definiu mesmo um prazo para que os manifestantes libertem as estradas e permitam o trânsito – ao mesmo tempo que inscreveu a questão sob litígio com os camionistas num quadro mais alargado de um plano que o governo tem em preparação e que visa encontrar medidas económicas contra a inflação.

Em cima da mesa está a possibilidade de o governo impor, por via do poder judicial, uma ‘limpeza’ das estradas que abra a circulação a todos os que pretendam viajar livremente no país.

Mas, para além da questão imediata, o que está em causa é a forma como um governo de esquerda irá lidar com o primeiro confronto político com uma classe que o ajudou a chegar ao poder. Boric – que não era o político que as sondagens davam como o mais favorecido pelos estudos de opinião – tem um programa que insiste no lado social da economia e quer manter o foco do Estado no auxílio aos mais necessitados, mas disse desde o primeiro momento que a economia teria que funcionar.

Uma parte das suas declarações e mesmo do seu projeto de governo pretendia conseguir aquilo que alguns analistas consideravam ser a quadratura do círculo: a intenção do jovem presidente era agradar à panóplia talvez demasiado diversificada de correntes políticas que se juntaram para lhe permitir chegar ao poder. Como muitos desses analistas anteciparam, os primeiros confrontos no terreno tenderão a deixar claro que essa mescla de apoio não pode funcionar quando os problemas são reais.

Esta primeira prova de fogo será também uma forma de o sub-continente perceber até que ponto a economia chilena é capaz de, depois da pandemia, resistir a um processo inflacionista que promete baralhar as contas dos orçamentos e lançar os protestos para a rua. O problema não é, aliás, unicamente chileno: num sub-continente onde milhões de pessoas vive sem poder deixar de gastar todo o salário mensal, qualquer crise que redunde do aumento dos bens essenciais pode ser a fronteira entre o bem-estar e a fome.

Por razões semelhantes, países como o Peru, a Bolívia ou o próprio Chile num passado próximo tiveram que se haver com crises sociais mais ou menos profundas, mas sempre capazes de alterar o status quo político.

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