Chove em Jerusalém

A decisão de aceitar a cidade como capital de Israel mereceu o repúdio de todos, do Vaticano ao Irão, da Rússia à China, da União Europeia à insuspeita NATO.

Se fosse preciso mais uma prova daquilo que para muitos é há muito tempo uma evidência, ela está aqui: a proclamação universal de que Jerusalém é a capital de Israel por parte dos Estados Unidos é a consubstanciação de que o presidente Donald Trump está pura e simplesmente a borrifar-se para toda a gente. Não para alguém em particular, não para um grupo isolado, não para um país, para uma religião, para uma etnia ou para uma ideologia, mas para toda a gente, com a única exclusão de si próprio e dos seus suspeitos interesses.

O resto do mundo, como que de repente atirado para um buraco negro de que pensava que se tinha livrado, engendrou como única explicação plausível para uma decisão que ninguém a não ser alguns israelitas – mas não todos, não se sabe sequer se a maioria – a necessidade de Donald Trump retirar-se dos holofotes da política interna, que o estão a chamuscar até à dor, e encontrar um fait divers além-fronteiras, que sirva para desviar as atenções dos norte-americanos.

Se assim for, como afirmam observadores dos mais diversos quadrantes, a decisão é de um cinismo de tal grandeza, que deveria ser suficiente para qualquer país aceitável promover de imediato o corte de relações diplomáticas com os Estados Unidos.

E, de algum modo, nada disto é propriamente uma surpresa: Trump é apenas mais um presidente dos felizmente não muitos que considera que o mundo é constituído por dois grupos: os Estados Unidos e todos os outros. Talvez esta triste (e principalmente perigosa) forma de encarar o mundo tenha tido o seu início no primeiro quarto do século XIX, quando o presidente à época, James Monroe (1817-25), engendrou aquilo que ficou conhecido como a Doutrina Monroe.

Basicamente, era isto: “Julgamos propícia esta ocasião [mensagem ao congresso em 2 de dezembro de 1823] para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência europeia”. Ou, dito de outra forma, os Estados Unidos arvoravam-se suficientemente melhores que todos os outros para passarem a interferir diretamente em todas as geografias do continente americano se isso fosse de algum modo favorável aos seus interesses. O resto do mundo viria a seguir.

Os quase dois séculos seguintes expuseram ao mundo até onde é que esta espúria teoria era capaz de chegar, tendo um dos seus expoentes máximos ocorrido no dia 11 de setembro de 1973 em Santiago do Chile, um dia demasiado chuvoso (uma chuva miudinha e corrosiva que só passou em 1990, quando Pinochet finalmente saiu de cena, ou quase) pela mão sempre certeira e sangrenta de Henry Kissinger – mais um desses americanos para quem os outros foram sempre nada.

Como nestes dois últimos dias já se percebeu, Trump conseguiu abrir as portas de toda a violência – que tenderá a aumentar à medida a que todos os atingidos quiserem cumprir vinganças que considerarem necessárias mesmo que insuficientes, numa espiral que infelizmente ninguém hoje consegue afirmar quando acabará. Trump, que afirmou que iria acabar com o terrorismo, fez, com esta decisão que mereceu o repúdio de todos, do Vaticano ao Irão, da Rússia à China, da União Europeia à insuspeita NATO, precisamente o contrário. A contagem dos mortos, que já começou, pesar-lhe-á para sempre na alma. Se tiver uma.

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