“Chovem Amores na Rua do Matadouro”, o novo teatro de Moçambique em Almada

Dois escritores deram corpo a esta história, Mia Couto e José Eduardo Agualusa. E dois encenadores recriaram a sua palavra no palco, Vítor Gonçalves e Clotilde Guirrugo. A digressão por Portugal termina em Almada, a 29 de julho.

Um homem com Fortuna no nome está zangado com o mundo, com a vida, com todos. Acima de tudo consigo mesmo. Baltazar Fortuna, de apelido unicamente, está muito zangado com as três mulheres da sua vida. Tem em mente um plano. Regressar a Xigovia para matar essas três mulheres que fizeram parte do seu passado. Isto na profunda convicção de que são elas a fonte de todos os azares que lhe infernizam a vida.

E assim faz. Regressa a Xigovia, uma pequena vila no sul de Moçambique, onde elas vivem. A morte das três, acredita, vai emendar a vida que escolheu viver, mas já não deseja, pois são elas as culpadas dos seus desmandos. O problema é que elas não querem colaborar. Ou seja, não querem morrer. O problema do mundo, aliás, é precisamente esse, meterem ideias na cabeça das mulheres. Citando Baltazar Fortuna, “desde Eva que andam em contramão”, as mulheres, claro.

“Chovem Amores na Rua do Matador” transpõe para o palco o conto com o mesmo título escrito a quatro mãos e publicado na obra “Terrorista Elegante”. As “mãos” aqui referidas remetem para o escritor moçambicano Mia Couto e para o escritor angolano José Eduardo Agualusa. A encenação, essa, também se fez a quatro mãos, desta feita as de Vítor Gonçalves e Clotilde Guirrugo, numa coprodução da Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde o encenador leciona desde 2008, com a Fundação Fernando Leite Couto.

O elenco de “Chovem Amores na Rua do Matador” integra estudantes e docentes da Escola de Comunicação e Arte da referida Universidade, entre quais figuram Angelina Chavango, Horácio Guiamba, Joana Mbalango, Josefina Massango e Violeta Mbilane. Évaro Abreu assina os cenários, Sara Machado os figurinos e a coreografia está a cargo de Ademar Chauque, com música de Shigeru Umebayashi.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa propõem-se, neste texto, a olhar as tensões entre um país de práticas ancestrais cristalizadas nas mentalidades masculinas dominantes e um país que vibra de jovens com sangue na guelra e que se distanciam de práticas sociais e estruturas culturais a elas associadas. As tensões entre Baltazar Fortuna e as suas mulheres – Mariana Chubichuba, Judite Malimali e Ermelinda Feitinha – espelham precisamente essas forças que chocam entre si, e que questionam o papel que homens e mulheres hoje desempenham na sociedade moçambicana.

“Chovem Amores na Rua do Matador” tem estado em digressão por Portugal e tem como última “paragem” a cidade de Almada, mais concretamente o Fórum Romeu Correia, onde será apresentado no dia 29 de julho, 16 anos depois de o encenador Vítor Gonçalves ter rumado a Moçambique para dar asas a uma licenciatura de teatro. É, pois, um regresso a uma outra sua casa, pois trabalhou durante perto de três décadas – mais concretamente 28 anos – com Joaquim Benite, na Companhia de Teatro de Almada, tendo sido subdiretor do Festival de Almada.

Recomendadas

Operafest Lisboa aposta na ópera do futuro

O emblemático jardim do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, recebe já a partir de 19 de agosto o Operafest Lisboa. A 3ª edição obedece ao tema “destino em viagem” e propõe uma catarse da máscara. Com muita música e humor.

Estilista japonês Issey Miyake morre aos 84 anos

Issey Miyake morreu no dia 5 de agosto de cancro do fígado.

Museu Bordalo Pinheiro lança Biblioteca Online em mês de aniversário

Agosto é mês de aniversário para o Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. E para assinalar 106 anos de vida, o Museu lançou um catálogo online, pois o futuro é digital e a obra de Bordalo quer-se, como diz a rima, “imortal”.
Comentários