Rui Nunes: “Ciência, sim, tecnologia sim, mas com rosto humano e fiscalização pelas entidades próprias”

Professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Rui Nunes defende que a Humanidade não pode ficar subjugada pela ciência e pela tecnologia nem pelas grandes plataformas tecnológicas.

A ciência e a tecnologia evoluíram de forma extraordinária nos últimos 50 anos. Nos campos da biotecnologia e da engenharia genética, os benefícios fazem sentir-se nos mais diferentes domínios da vida e traduzem-se em elevadíssimos níveis de bem-estar. Exemplos? A vacinação para a Covid-19, as técnicas de procriação medicamente assistida, ou o surgimento de novos fármacos que podem transformar neoplasias em estádios avançados em doenças crónicas e, assim, prolongar as nossas vidas.

“Os benefícios são tremendos, mas apesar disso há questões éticas absolutamente centrais que têm que ser consideradas ao falar da ciência e de tecnologia. Não é para servirem de obstáculo, mas para servirem de consideração, muitas vezes prévia”, afirma Rui Nunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, ao Jornal Económico.

Não é por acaso, salienta, que as instituições onde se faz ciência e investigação que envolva seres humanos dispõem de comités de ética. “Ciência, sim, tecnologia sim, mas com rosto humano e devidamente fiscalizada pelas entidades próprias, nomeadamente os comités de ética”. A ciência e a tecnologia não são neutras do ponto de vista ético. A energia atómica, no passado, como a inteligência artificial ou a engenharia genética de melhoramento, no presente, têm consequências e, por vezes, desastrosas. Não é por acaso que o cientista chinês que recombinou geneticamente dois embriões femininos que deram duas meninas já nascidas, está preso, mesmo na China porque se percebeu que era uma linha vermelha quando não havia ainda consenso internacional sobre a matéria.

O modo como se faz ciência e tecnologia é de facto uma questão-chave, afirma Rui Nunes, e não pode haver complacência com “desvios imorais e não éticos”, sejam de desrespeito pelos direitos humanos, pela falsificação de dados, ou pelo plágio da publicação. O professor defende uma ciência com ética e com integridade e a existência de instituições reguladoras fortes e um quadro regulatório nacional e sobretudo internacional que permitam uma supervisão adequada assim como uma adequada partilha do próprio conhecimento científico. “O cientista move-se por princípios de cariz utilitário, com o objetivo de fazer avançar a ciência. No entanto, pode haver, por vezes, a tentação de pôr a ciência à frente das pessoas e isso não pode nunca acontecer. É muito fácil haver desvios e muito difícil escrutiná-los”, salienta.

A questão do acesso à ciência

Outra questão crítica, segundo Rui Nunes, é a justiça no acesso à ciência e à tecnologia, extraordinariamente dispendiosa e dependente de grandes empresas transnacionais que perseguem o lucro e o indexam ao preço final do fármaco, da vacina, do tratamento e protegidas por patentes. “A questão vai tornar-se ainda mais complexa com a medicina de precisão, que vai desenvolver fármacos inovadores que já não serão de utilização global, mas direcionados para determinados grupos de pessoas, que os podem pagar”, explica. “O acesso já não é equitativo e sê-lo-á menos ainda no futuro”, salienta.

A quarta grande questão levantada por Rui Nunes foi acelerada pela pandemia da Covid-19 e diz respeito à transformação digital e mais especificamente às atividades que são impactadas pela Inteligência Artificial. “Vai mudar radicalmente o panorama da saúde nos próximos anos”, adianta o professor da Universidade do Porto, a começar no modo como a própria Medicina se vai desenvolver.

Dentro de uma década, no máximo, grande parte do trabalho médico será feito por algoritmos de inteligência artificial. É extraordinariamente positivo em alguns aspetos, como a precisão, a rapidez e o networking, mas o processo não poderá ficar em roda livre. “O que não pode acontecer nunca é estar a Humanidade subjugada pela ciência e tecnologia e aqueles que a controlam, nomeadamente as grandes plataformas tecnológicas”, conclui Rui Nunes.

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