Cimeira da NATO: o Ártico é a próxima fronteira

A entrada da Suécia e da Finlândia na NATO, um dos temas centrais da agenda da cimeira da Roménia, transforma o Ártico numa nova zona de conflito potencial. A Rússia lembrou esse perigo, que Jens Stoltenberg conhece bem.

epa09846292 NATO Secretary General Jens Stoltenberg gives a press conference at the end of an extraordinary NATO Summit at the Alliance headquarters in Brussels, Belgium, 24 March 2022. EPA/STEPHANIE LECOCQ

Desde que começou a guerra na Ucrânia que o Ártico ganhou densidade como zona de segurança da aliança atlântica – e a entrada da Suécia e da Finlândia no agregado veio reforçar essa evidência. Esta quarta-feira, a propósito da reunião da NATO em Bucareste, capital da Roménia, Moscovo voltou ao assunto: “a Suécia e Finlândia na NATO podem aumentar a tensão no Ártico”, disse a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova. “Há um aumento significativo das tensões” na região.

Mas a questão não se prende apenas com a Suécia e a Finlândia. Em agosto passado, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, escrevia no site oficial da aliança que “estou a visitar o Ártico canadiano com o primeiro-ministro Justin Trudeau para destacar a importância estratégica da região para a segurança euro-atlântica. O caminho mais curto para a América do Norte para mísseis ou bombardeiros russos é sobre o Pólo Norte. Isso torna o papel do North American Aerospace Defense Command (NORAD) vital para a América do Norte e para a NATO”.

Grande parte do extremo norte do planeta tem sido tradicionalmente uma área de baixas tensões. “Mas infelizmente isso está a mudar devido ao rápido aquecimento do clima e ao aumento da competição global. Partes crescentes do Ártico ficarão sem gelo no verão e isso abre oportunidades para rotas marítimas, recursos naturais e desenvolvimento económico. Mas também aumenta o risco e a tensão. Regimes autoritários estão a intensificar as suas atividades e interesses no Ártico”, acusava Stoltenberg.

E dava os exemplos do costume. “A Rússia aumentou significativamente a sua atividade militar nos últimos anos, estabelecendo um novo Comando Ártico, abrindo centenas de novos e antigos locais militares no Ártico da era soviética, incluindo aeródromos e portos de águas profundas, e usando a região como campo de teste para novas armas”

“A China também está a expandir o seu alcance, declarando-se um Estado próximo ao Ártico e planejando uma ‘Rota da Seda Polar’ ligando a China à Europa através do Ártico. Está a fortalecer rapidamente a sua marinha, com planos de construir o maior navio quebra-gelo do mundo e a investir biliões de dólares em projetos de energia, infraestruturas e investigação na região”.

No início deste ano, Pequim e Moscovo “prometeram intensificar a cooperação no Ártico, como parte de uma parceria estratégica cada vez mais profunda que desafia os nossos valores e interesses”, concluiu o secretário-geral.

Neste quadro, a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO pode ser vista, segundo alguns observadores, de forma diversa: não como uma resposta à invasão da Ucrânia, mas como o estabelecimento de uma nova ‘linha de trincheiras’ entre a aliança e os seus principais inimigos

“Assim que a Finlândia e a Suécia aderirem à aliança, sete dos oito Estados do Ártico serão membros da NATO”, recorda o seu secretário-geral. “A adesão da Finlândia e da Suécia irá melhorar significativamente a nossa posição no extremo norte e a nossa capacidade de reforçar o apoio aos nossos aliados do Báltico”.

Entretanto, na cimeira de Bucareste, o tema central voltou a ser a Ucrânia – e o tema acessório foi o das reticências da Turquia à entrada da Suécia e da Finlândia, que parecem estar cada vez mais esbatidas. Mas a Rússia entendeu que o verdadeiro tema não será esse e o ministério liderado por Sergey Lavrov parece não ter querido deixar de focar o debate.

A cimeira também debateu a necessidade – sentida particularmente pela Itália, a ‘vizinha da frente’ – de a NATO e a União Europeia (mas noutro quadro) insistirem com a aproximação aos países dos Balcãs Ocidentais. O assunto é movediço, dado que nem todos os países da região querem passara a pertencer à NATO e nenhum deles está em condições de aderir à União Europeia. Entretanto, a Rússia espreita e não perde muito da sua tradicional influência na região.

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