(Co)desenhar um novo morar

Segundo o Fórum Económico Mundial os benefícios sociais, económicos e ambientais da habitação colaborativa são evidentes, por se tratar de “um modelo mais inclusivo e sustentável.

A questão da habitação, em Portugal, é elementar e decisiva na construção da coesão territorial. A Nova Geração de Políticas de Habitação, desenhada com base nos resultados do Levantamento Nacional das Necessidades de Realojamento Habitacional, previa um programa de resposta às carências habitacionais nacionais através de Estratégias Locais de Habitação definidas pelos municípios.

Passados quatro anos, as soluções adotadas em termos públicos e privados têm sido bastante limitadas no financiamento e nas configurações espaciais decorrentes das necessidades dos seus habitantes. Se lhe associarmos a escassez generalizada de habitação acessível, o aumento de pessoas que vivem sozinhas, o envelhecimento da população e os novos estilos de vida, verificamos que é a oportunidade perdida para forçar decisores, promotores e desenhadores a repensar os modelos de habitação coletiva.

Será “habitação colaborativa” ou cohousing uma alternativa?

Segundo o Fórum Económico Mundial, os benefícios sociais, económicos e ambientais da habitação colaborativa são evidentes, por se tratar de  “um modelo mais inclusivo e sustentável que facilita a convivência, a cooperação e o uso responsável dos recursos naturais e energéticos.”

Visão partilhada pelo arquiteto Charles Durrett, que projetou e acompanhou a construção de mais de 60 comunidades cohousing nos Estados Unidos e no Canadá: “As pessoas decidem morar num mesmo espaço físico, no qual o terreno, as construções se constituem meios de integração e convívio entre todos os moradores, permitindo e promovendo uma vida comunitária intensa, mas sem impedir que cada morador tenha uma vida familiar de forma privativa.”

O modelo nasceu na Dinamarca nos anos 60 do século passado, e combina diferentes soluções arquitetónicas com os princípios de vida comunitária, cooperativismo e propriedade coletiva. Uma tendência crescente que, para Daykin Marshall, “é uma forma de otimizar os cuidados infantis, o trabalho doméstico (…) mas, acima de tudo, é uma solução que aumenta a qualidade de vida, uma vez que melhora as relações sociais”.

Já na Bienal de Veneza 2021, o curador Hashim Sarkis, deixava o mote: “Precisamos de um novo contrato espacial”. Um convite para os arquitetos imaginarem novos espaços de forma a otimizar recursos e a vida em conjunto.

Para melhor compreender estes novos espaços e o seu futuro impacto, a Space10, um think tank dinamarquês apoiado pela IKEA, promove o questionário online One Shared House 2030 para uma reflexão coletiva.

Na Europa, o Marmalade Lane Cohousing, desenhado pelos Mole Architects, é um exemplo paradigmático da importância do codesenho de um novo morar. Para um dos moradores foi a oportunidade para decidir “como organizar antecipadamente as áreas comuns com os vizinhos. Isto ajudou a criar um sentido de comunidade.”

Em Portugal, o modelo não é novo e os municípios de Lisboa e do Porto têm já algumas iniciativas pioneiras, mas ainda muito longe dos princípios básicos e plenos da habitação colaborativa. Falta reconhecer o facto de que a casa pode ser resultado de uma construção coletiva e um potencial de mudança nos processos de decisão municipal nas estratégias locais de habitação.

A resposta continua em aberto.

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