“Combatemos todas as iniciativas que coloquem em questão a Zona Franca”

“A ACIF combate todas as iniciativas que possam colocar em questão o Centro Internacional de Negócios da Madeira”. A frase é da presidente da direção da ACIF – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira.

Em entrevista ao Económico Madeira, Cristina Pedra Costa justifica a defesa da associação patronal centenária da Madeira na medida em que considera que a Zona Franca da Madeira “é um centro de fiscalidade reduzida e não é um offshore, com os quais a ACIF é totalmente contra. É um centro totalmente transparente”. Lembra que “todas as declarações, obrigações, contabilísticas, financeiras, de segurança social, de “report” ao Banco de Portugal ou outras entidades, são as mesmas que existem, quer uma empresa seja do Funchal, de Bragança, de Lisboa ou de Ponta Delgada”.

Nesta entrevista, a enérgica presidente teve oportunidade de falar temas como o facto de que não existem candidaturas para a formação profissional de ativos há cinco anos e refere que a operação de um navio ferry na linha Madeira e Continente e de um avião cargueiro seria bom mas considera que a decisão está do lado dos empresários. Cristina Pedra Costa falou igualmente do subsídio de mobilidade no transporte aéreo entre a Madeira e o Continente, que entende ter de ser revisto e desmaterializado o seu pagamento. Referiu que, em matéria de reformas estruturais, o que está em duplicado tem de ser eliminado, e entre outros temas abordados, confidenciou que ainda existe receio de investir.

Como analisa este primeiro ano do novo mandato à frente da direção da ACIF – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira?

Foi um ano em que tinham sido definidas diversas iniciativas para comemorar os 180 anos da ACIF. Todas foram escrupulosamente cumpridas. E até superadas. Estivemos sempre em “overbooking” nos auditórios onde lançamos os eventos.

O “Dia do Empresário Madeirense”, que já é comemorado há 15 anos pela ACIF, contou com um segundo painel onde, pelo motivo dos 180 anos, convidamos os quatro presidentes das quatro confederações portuguesas a estarem presentes na Madeira para debater e refletir problemas que as confederações têm e formas de os ultrapassar.

A ligação da ACIF aos órgãos sociais de algumas dessas instituições também pesou nessa opção?

Não é alheio o percurso que a ACIF tem feito nos órgãos sociais de algumas confederações.

Subentende-se das suas palavras que então não ficou nada por fazer este ano…

De tudo o que delineamos não ficou absolutamente nada por fazer.

Sendo assim, até fez mais do que o programado uma vez que teve ação de solidariedade referente ao grande incêndio do verão na Madeira…

A ACIF lançou campanhas junto dos seus associados que culminaram com o envolvimento direto dos sócios, desde hotéis que cederam as cantinas para os bombeiros terem lá alimentação, fornecimento de refeições, roupas e diverso economato. E, por fim, conseguimos fechar com um fornecedor nacional a cedência em espécie de 10 mil euros de eletrodomésticos de primeira necessidade, como fogões, esquentadores e frigoríficos, para serem distribuídos pela Secretaria Regional dos Assuntos Sociais, com quem celebramos um protocolo mediante o qual toda essa mercadoria ficou em sua posse, dando o devido encaminhamento.

Pode falar um pouco da nova aposta deste ano no Delegado Concelhio.

O Delegado Concelhio é uma aposta da ACIF, que é há 30 anos uma Câmara de Comércio e Indústria da Madeira. Nesse âmbito, temos associados em todos os concelhos e muitos dão conta de especificidades locais que obedeciam a uma proximidade.

Instituir ACIF por toda a Madeira era e é inviável por uma questão de custos. Não há possibilidade de ter essa lógica. Então, o que instituímos foi a figura do Delegado Concelhio, que é nosso associado e que terá reuniões temáticas do local onde se insere, estando permanentemente em articulação com as Mesas e com a estrutura da ACIF, que dispõe de 21 técnicos especializados, que estão ao dispor dos delegados concelhios. Desta forma, tudo o que tem especificidade local beneficia de uma comunicação muito fluída.

Em síntese, o Delegado Concelhio da ACIF faz a ponte entre o respetivo concelho e a ACIF…

Faz a ponte, e a ACIF imediatamente, se se trata de uma questão transversal a uma Mesa, fá-la com ela. Já têm existido reuniões dos delegados concelhios com Mesas setoriais.

Dentro da escassez de recursos com que todos nos confrontamos, tem sido um meio expedito e hábil para que a ACIF possa ser uma verdadeira câmara de comércio.

A Associação já dispõe de delegados em todos os concelhos?

Ainda não. Alguns concelhos não mostraram tanta necessidade.

A primeira reunião tem sido sempre feita pela direção, em concreto comigo, pelo Delegado Concelhio e com uma visita à câmara municipal respetiva para que, formalmente, se apresente o Delegado Concelhio e que ele seja um porta-voz de pleno direito quando tomar posições no seu concelho.

Não há possibilidade de fazer candidaturas para ativos

 

Disse recentemente que os atrasos na abertura de candidaturas aos quadros comunitários até 2020 estão a causar constrangimentos à economia, nomeadamente na questão da formação profissional. O problema é antigo, mas de quem é a culpa?

Não sei. Da ACIF não é, com certeza.

A culpa é do Governo Regional, do Estado, ou de ambos?

Continuo a dizer que não sei. O caso da formação profissional é um exemplo típico. Até hoje não há possibilidade de fazer candidaturas para ativos.

O que é que isso quer dizer?

Há algumas candidaturas que já são possíveis, nomeadamente para a vertente das escolas e da educação. Mas uma das temáticas que é fundamental para os empresários é a aposta na qualificação dos seus recursos humanos.

Não podemos dar como prioridade para a Madeira, incluindo ser aprovado na Assembleia Legislativa da Madeira, que a estratégia para a Região passe logo pelo pilar do turismo, já que isso pressupõe um grande investimento no atendimento, em línguas, na forma como se “emprata”…

Queremos um destino de qualidade e não de quantidade. Logo, as formas de valor acrescentado que temos de dar passam pela nossa hospitalidade e pelo bem servir. Isto passa por uma formação que se impõe, contínua e continuada, nos recursos humanos. Nada na Madeira tem quantidade pelo que temos de ter uma diferenciação pela qualidade.

E essa diferenciação existe na Madeira?

Todas as unidades hoteleiras, mas também as de restauração e de comércio, entre outras, carecem de apresentar candidaturas para formar os seus recursos humanos. Estas candidaturas não foram abertas nos últimos três anos do Governo do dr. Alberto João Jardim. Até à data, continuam sem ser abertas. Isto significa que naquele pilar que ainda hoje o Governo atual declara como prioritário e sustentável para a economia da Região Autónoma da Madeira, e que a ACIF corrobora a 100%, pelo menos há cinco anos que não tem qualquer hipótese de investimento em formação, comparticipada uma parte pelo Fundo Social Europeu ou pelo Rumos. Essa realidade continua a se verificar e é de extrema gravidade. É, aliás, um dos pontos que a Mesa de Hotelaria tem permanentemente destacado como uma das maiores lacunas para poder ter a aposta no turismo.

Estamos perante um problema da Madeira ou de Lisboa?

Nos anos do anterior Governo Regional, em que não foi aberto, não era um problema claramente da República. Foi uma opção política ou falta de opção política da Região.

O processo da formação profissional, inicialmente, e durante muitos e largos meses, identifico-o como sendo um problema nacional. O Governo da República decidiu fazer sistemas informáticos próprios, e concretamente no caso da formação profissional, que, especificamente, indicavam que só era possível submeter candidaturas através daquelas novas plataformas. Isto bloqueou todas as candidaturas em Portugal. Todas, sem exceção.

Houve aqui um período de largos meses onde, claramente, foi um problema do Governo da República.

E agora?

Neste momento, a informação que a ACIF tem, até pelas suas congéneres a nível nacional, é que muitas candidaturas estão a entrar. Não sei é se estão a ser validades. O facto é que na Região Autónoma da Madeira não é possível ainda submeter a qualificação para os ativos, que é esta concretamente que mais interessa aos empresários.

Defende reformas estruturais para tornar a ação empresarial mais eficaz.

Quem as tem de fazer? Unicamente o Estado, o Governo Regional, ou os dois?

Eu diria que todos. Há reformas que se impõem para bem do nosso futuro e dos nossos filhos e netos que passam por reformas da União Europeia que têm tido muito bons resultados de quem tem de inverter o rumo. Por outro lado, há que haver um saneamento de estruturas e burocracias que estão a mais e que não contribuem para valor acrescentado nenhum a nível do Governo da República. E o mesmo se passa a nível regional.

O que temos assistido em discursos, nomeadamente do Governo da República, é um aumento da despesa.

Mas o compromisso que existia, quer com a troika, como todas as conclusões apontam é que, inclusive, tal como os partidos que sustentam o atual governo, muitas vezes afirmaram, era que havia necessidade reformar o Estado.

Reformar o Estado está a ver-se que não é tarefa fácil.

Pois, reformar o Estado é tão simples ou tão difícil como aquilo que não cria valor acrescentado. O que está em duplicado, triplicado ou dez vezes mais, tem de ser eliminado.

Além disso, são necessários mais “Simplex”…

O Simplex é uma vertente que este Governo da República retomou e bem. Mas é preciso ir mais longe. São necessárias decisões políticas que passem pelo aliviar de estruturas que não servem para nada senão para garantir quem lá está.

Ainda há receio para investir

Como analisa o setor empresarial na Região Autónoma da Madeira? O que está bem e recomenda-se e o que falta para que as empresas sejam mais sólidas e potenciem mais emprego?

Continuamos a notar um receio de investir. Muito claramente. Houve uns anos de purga da atividade económica, nomeadamente com um número enorme de centenas e centenas de empresas em insolvência.

Uma parte dos problemas não será pela falta de crédito da banca porque tem aberto mais as portas…

Diria que as insolvências foi muito mais do que a banca. Até porque a banca também vive os seus problemas e muita dela é responsável pela própria crise. A banca não se pode por ao fresco com as suas responsabilidades que teve e tem. E ainda hoje não há grande parte da banca, para não dizer toda, que já esteja bem.

Mas a banca não está a abrir mais concessões de créditos às empresas?

Há mais, mas há muito mais cuidado na concessão de crédito, o que é bom para que não exista crédito malparado. Diria que temos assistido a projetos com viabilidade económica que são apresentados aos bancos e que estes têm financiado.

Hoje, tirando uma altura em que foi um caos completo entre todos, em 2008 e anos seguintes, vemos uma grande aproximação de instituições financeiras, nomeadamente com protocolos que têm feito com a ACIF e com uma abertura muito grande a estudar projetos sérios de investimento.

Os empresários, de uma forma geral, de que é se queixam mais à ACIF?

Vêm queixar-se de concorrência desleal.

Concorrência desleal em que áreas?

Posso dar exemplos em todas as áreas.

Os chineses estão nessa lista?

Os chineses ou os indianos, desde que cumpram as suas obrigações fiscais e declarativas, são tão bons como os outros.

O que me refiro na concorrência desleal são casos como o de uma queixa que temos na Mesa dos Concessionários e de Reparações referente a vendedores de viaturas na rua que colocam os números de telemóveis nos carros para transacionarem e não estão legalmente constituídos. Não têm início de atividade dado nas Finanças, nem emitem faturas…

Ou seja, o que parece ser isolado número de telemóvel de um particular acaba por ser de alguém que vende mais que aquele carro…

Sim. Já detetaram situações, e colocaram-nas a entidades públicas, onde esse número aparecia várias vezes nas mesmas ruas, em publicidade em redes sociais, e que era uma cadeia de vendas e não um particular que vende um carro.

Mas posso dar outros exemplos na área do comércio. A ACIF tem feito o Mercado de Oportunidades. E uma das exigências que fazemos para aceitar a inscrição é ser um comerciante inscrito nas Finanças.

Ora, vemos a céu aberto, feiras e feirinhas, a proliferar por todas as zonas do Funchal. Mas poderia alargar para outros concelhos, onde vendem tudo e mais alguma coisa. Algumas nem sequer inscritas estão nas Finanças. Por isso, temos queixas do comércio que são legítimas e que são de concorrência desleal.

Não há declaração de vendas para as Finanças, não há IVA… Daí poderem praticar outros preços diferentes dos comerciantes que têm a porta aberta.

É por isso que desde a primeira hora em que estou na direção da ACIF, já antes presidida pelo dr. Duarte Rodrigues, em que não haja uma inscrição que se aceite em que não se obrigue a mostrar que está coletado para efeitos fiscais.

Comércio tradicional enfrenta concorrência desleal

 

Estas questões encadeiam um pouco na vertente do comércio tradicional ou em contexto urbano, como se quiser chamar. Este comércio de proximidade continua a desaparecer ou vislumbram-se recuperações? Pergunto estas empresas que mais se ressentem desta concorrência?

Não só. A restauração também. Existem algumas queixas de associados da restauração devido a comércio de produtos de pastelaria por pessoas que não estão coletadas. E aqui com um problema maior já que nem sequer há garantia dos requisitos sanitários e de saúde pública.

Mas também existem situações identificadas e que encaminhamos para as respetivas entidades públicas, que têm a ver que, por vezes, instituições sem fins económicos fazem serviço de catering. Não estão com o IRC e nem com os regimes que deveriam estar.

Estamos então perante uma grande concorrência desleal…

Posso dizer que a direção tem reuniões com todas as Mesas, sem exceção, e não existe nenhuma das mais de 20 que a ACIF dispõe em que uma das queixas não tenha sido a concorrência desleal.

Alguém que não devia, andará distraído com a fiscalização.

É difícil…

 

Mas não há uma entidade que deve fiscalizar?

Existem diversas. E um dos problemas pode residir aí, seguramente. Às autarquias compete verificar as licenças. Às atividades económicas cabe aferir, por exemplo, se os produtos estão dentro da validade e se há concorrência desleal a ser exercida ou não. À autoridade tributária compete ir ver se são contribuintes ou não.

 

Cada uma atua por si própria e não comunica?

Quero acreditar que os sistemas hoje vão sendo melhorados. Existem meios como o e-Fatura, que faz com que a autoridade tributária tenha outros meios de fiscalização, mesmo dentro de casa.

As atividades económicas parecem-me que têm feito um trabalho muito mais interventivo. Vejo que há um posicionamento que reconheço muito mais dinâmico e pró-ativo do que há uns anos.

Agora, quando estatísticas informais, feitas por pessoas credíveis, dentro do possível, com alguns estudos que as sustentam, afirmam que 25% da economia portuguesa é mercado paralelo estamos perante um flagelo. É uma realidade que não existe só no País.

 

A Madeira não deve fugir muito a essa estatística…

Embora não existem estudos específicos da Madeira, não andará fora da realidade nacional. É preciso ter em conta que por cada euro que se consegue meter no sistema é um euro que se alivia a aqueles que cumprem e pagam. Uma das áreas claras de intervenção são para aqueles que estão fora e a fugir às obrigações que todos temos comecem a estar dentro do sistema.

 

Os empresários aproximam-se mais da ACIF em momentos menos bons como o que vivemos ou desmotivam-se, afastam-se e enfrentam os problemas sozinhos?

Existem duas situações. A ACIF perdeu muitos associados devido às insolvências. Mas faço sempre uma análise ao associado que sai para saber se o faz por estar descontente, e, se assim for, necessito de conhecer o motivo, ou se foi por razões económicas, nomeadamente insolvência.

Nenhum dos associados que saiu foi por descontentamento. Os que têm saído foram por insolvência. No entanto, alguns apenas pedem a suspensão provisória do estatuto de associado até melhorarem a suas contas.

 

E, nestes casos, a ACIF relega-os para segundo plano, ou numa altura em talvez careçam mais do apoio da Associação, continua a dar a mão?

Depende da situação. Obviamente que tem de ser fundamentado porque se continuamos a apoiar de olhos fechados, porventura todos requeriam isso. Mas analisamos os casos concretos, que vão à reunião de direção e depois vemos o que está em questão.

 

No plano inverso, existem entradas de novos associados?

Uma realidade em que a ACIF tem tido a dianteira, e daí muitos associados novos, reside no facto de termos feito uma especialização muito grande, desde há quatro anos, pelo menos, em tudo o que são incentivos comunitários.

 

Entre o número de novos associados e dos que saíram da ACIF qual é o saldo?

O saldo deste ano é positivo.

 

Quantos sócios tem a ACIF?

Temos cerca de 750 associados.

 

O Centro Internacional de Negócios da Madeira foi criado para diversificar a economia regional, a par do turismo. Para se ter uma ideia da sua importância, que reflexos veria na economia insular se o CINM deixasse de existir?

Um desastre. Por isso, a ACIF combate todas as iniciativas que possam colocar em questão o Centro Internacional de Negócios da Madeira. É um centro de fiscalidade reduzida e não é um offshore, com os quais a ACIF é totalmente contra. É um centro totalmente transparente. Todas as declarações, obrigações, contabilísticas, financeiras, de segurança social, de “report” ao Banco de Portugal ou outras entidades, são as mesmas que existem, quer uma empresa seja do Funchal, de Bragança, de Lisboa ou de Ponta Delgada. O que no fim do ano se faz é a aplicação de uma taxa de 5%, em vez de uma taxa de 21%. É tudo claro e transparente.

Situações que possam correr mal, como qualquer ilícito, tanto é possível no CINM como fora. Dou o exemplo do BPN que não estava no Centro Internacional de Negócios da Madeira.

A clareza, a transparência e a segurança é tão grande ali como em todo o espaço nacional. Mas o Centro Internacional de Negócios da Madeira ainda vai mais longe em termos de credibilidade porque tem sido diretamente e permanentemente acompanhado pela OCDE e pela Comissão Europeia. Isto significa que há um crivo ainda maior que está a dar como fidedigno, transparente e fiável, este centro.

 

Receitas de 190 milhões para o Orçamento Regional

 

Que mais vantagens aponta para o CINM?
O Centro Internacional de Negócios da Madeira, além de representar milhares de postos de trabalho, cuja média salarial é muito maior que a que é paga em Portugal, porque a sua especificidade e a especialização é maior, vai contribuir este ano com receitas para o Orçamento Regional de cerca de 190 milhões de euros.

Por isso, não é aceitável que sequer baixemos os braços e não sejamos extremamente combativos. A ACIF aqui assume essa prioridade quando alguém colocar em questão ou quiser combater o Centro Internacional de Negócios da Madeira.

Lembro que tomamos uma posição muito violenta quando em meados deste ano o Bloco de Esquerda fez uma apresentação de uma proposta de alteração na Assembleia da República onde indicava, para além de conjunto de barbaridades, um cariz de offshore ao Centro Internacional de Negócios da Madeira. A ACIF liderou e teve uma iniciativa junto de diversas instâncias a nível nacional onde se opôs muito ativamente contra isso. E essa é a linha que vamos seguramente manter sempre até ao fim do mandato.

 

Concentração de verbas da promoção é positiva

 

Até que ponto os objetivos preconizados até 2020 no Documento Estratégico para o Turismo na Região Autónoma da Madeira, da ACIF estão a encaminhar-se efetivamente com o crescimento do negócio do turismo no arquipélago? Ou apenas continuamos a beneficiar da instabilidade de outros destinos concorrentes?

Sem dúvida que temos ganho muito, não só a Região mas também todo o País, da instabilidade de outros mercados. Isso tem levado a um desvio em massa para Portugal e a Madeira, concretamente. Por outro lado, também é conhecido que Canárias, que tem ganho igualmente com deslocalização do turismo, está em níveis de superlotação. Ganhamos pelo desvio dos mercados de insegurança e de guerra.

 

E o Turismo da Madeira está só a beneficiar disso ou também a criar condições para estes turistas?

Estes fluxos não são o único fator que está a trazer mais turistas para a Madeira. É um facto muito objetivo que não podemos escamotear. Outra situação tem sido um brilhante trabalho feito pela Associação de Promoção da Madeira.

Uma das conclusões do Documento Estratégico que a ACIF fez para o turismo era que a concentração de tudo o que fossem verbas para a promoção na Associação de Promoção da Madeira.

A realidade anterior era que a Direção Regional do Turismo tinha promoção e a Associação de Promoção da Madeira, também a tinha. E, por vezes, um operador tinha de falar para determinado mercado com a Direção Regional e, para outro, com a Associação de Promoção. Não somos assim tão grandes que não se consiga concentrar.

Houve uma alteração dos próprios estatutos da AP Madeira e o Governo Regional, numa das primeiras opções políticas que tomou decidiu concentrar as verbas de promoção na Associação de Promoção da Madeira. Registamos isso como um facto muito positivo igualmente para o sucesso do turismo.

 

Ainda existem passos a dar no Turismo

 

O trabalho que tem vindo a ser feito pela AP Madeira deixa-a satisfeita?

As campanhas têm sido bem organizadas e tem sido desenvolvido um excelente trabalho virado para camadas mais jovens, com mais energias, campanhas diferentes e mais leves e com outros targets.

Igualmente com outros serviços de valor acrescentado e não apenas o hotel tradicional. Por isso, no que toca à promoção, a aposta tem sido de acordo com o tínhamos definido.

Deduzo que está então tudo bem em matéria de turismo.

Existem outros passos a dar, nomeadamente na implementação total do Documento Estratégico para o Turismo na Região Autónoma da Madeira, que não se esgota na promoção.

Há um caminho a percorrer que espero que o Governo venha a assumir…

Até 2020 tem tempo…

Não. Até 2020 era um cronograma e uma calendarização para ser consistente na implementação toda. Há alguns percursos a fazer. Apontamos diversas direções e pontos concretos de atuação para o Governo Regional e para as autarquias.

Além disso, fizemos um levantamento de desafios e de necessidades que os próprios empresários têm de fazer. Não aligeiramos responsabilidades para os nossos associados. E um traço muito comum foi no Documento Estratégico que os empresários têm que requalificar parte do parque hoteleiro, onde existem algumas unidades com uma média de 20 anos.

Por isso, há desafios para todos.

 

A questão da taxa turística com Santa Cruz é um assunto encerrado?

Sei que o presidente da Mesa reuniu-se recentemente com a Câmara Municipal de Santa Cruz mas não sei em pé está.

 

Como vê a intenção deste governo de começar a cobrar para ter acesso a lugares como o Cabo Girão?

É uma questão polémica e discutível.

 

Não é matéria que Canárias não a faça há muito tempo…

… Que o mundo faça. Mas é controversa porque, por um lado, existem associados que consideram que o facto de levar turistas a uma determinada zona proporciona um conjunto de negócios nos próprios locais que de outra forma não existiriam.

Há, por isso, um conjunto de associados que rejeita, como princípio, as taxas. E há um outro conjunto de associados que considera que há um maior desgaste das zonas com maior afluência, pelo que deve haver uma contribuição para as manterem permanentemente em condições esses espaços a visitar. Daí dizer que não é um assunto consensual onde os associados estão muito divididos.

 

O atual modelo de subsídio de mobilidade no transporte aéreo para as viagens entre a Madeira e o Continente agrada à presidente da ACIF?

Tem que ser revisto. Há uma declaração de princípio na qual a ACIF considera, tendo em linha de conta o “input” dos seus associados, que o atual sistema é melhor para quem paga do que o anterior. Desde logo porque o custo será 86 euros, ou 60 euros no caso dos estudantes, agora que está revisto com as quatro classes de económica, porque não era assim há um ano. Existiam duas classes que estavam excluídas e algumas pessoas tinha dissabores quando iam receber. Neste momento, as tarifas em económica têm esse reembolso.

Mas também é verdade que é preciso ter centenas de euros para antecipar. Embora o custo seja menor, haviam alturas antes do atual modelo, onde existiam passagens que custavam menos de 86 euros. Mas dando de barato que eram casos pontuais, o custo é menor mas a disponibilização de dinheiro é muito maior.

Por outro lado assiste-se também ao facto dos preços terem subido muito. Não quero usar o termo concertação, porque não é isso, mas, por coincidência, ou não, os preços, exponencialmente subiram. Isso significa que há um esforço de tesouraria, que não de custo, que as famílias têm de suportar e que têm de ter dinheiro para antecipar.

 

Será por esse lado que terá de haver mexidas?

A ACIF apresentou uma proposta concreta de revisão do subsídio de mobilidade que passa por cerca de 15 pontos. Fê-la chegar há mais de 10 meses à Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura. Apresenta um contributo que se espera seja positivo, identificando situações detetadas pelos nossos associados das agências de viagens, por hoteleiros, entre outros, de situações muito concretas onde se diz quais as áreas e as zonas de intervenção.

Para além de aspetos gerais, uma das propostas da ACIF foi trabalhar no sentido de desmaterializar os procedimentos e não ter que ir aos Correios fazer o levantamento.

Há situações detetadas e informadas por associados em que, por vezes, chegam a balcões dos CTT e já não há mais dinheiro para pagar. Têm que voltar noutro dia.

Não nos parece que hoje, quando tudo é desmaterializado, até para pagar o IRS, que não possa ser feito este pagamento através do IBAN. Só iria aos Correios quem tinha tempo e gostasse desse percurso de lazer e não por obrigação.

Até porque depois existem problemas com a questão da segurança.

 

Ferry e avião de carga são importantes mas mercado é que “manda”

 

Como vê as promessas não cumpridas do atual executivo madeirense em relação ao avião cargueiro e a uma ligação marítima, por ferry, entre o continente e a ilha?

Não consigo dizer absolutamente nada. São, como diz, questões de escolha política, acerca das quais não disponho de qualquer informação se vão ou não avançar.

 

Estes serviços seriam importantes para a Madeira?

O ferry era importante como uma forma de transporte de mercadorias. Mas não pode haver concorrência desleal em relação ao transporte de mercadorias já existente. Assim como não aceitamos a concorrência desleal no comércio também não pode haver em qualquer outro setor.

Alguns associados já nos referiram a sua importância para o transporte de bens perecíveis como igualmente para empresas de manutenção que tinham possibilidade de ir ao Continente com as próprias carrinhas de manutenção, e fazer um trabalho, inclusive de contratação pública, ou de concorrer a contratos maiores de fornecimento porque seria possível fazerem a manutenção.

Era uma alternativa aos negócios, tal como o avião cargueiro daria.

Agora, se admito que os empresários, quando detetam uma oportunidade de negócio apostam nela, e se até hoje não houve empresas interessadas nesse negócio, provavelmente é porque nos estudos que fizeram equacionaram que não era rentável.

 

Então será mais culpa do mercado do que do Governo?

Uma coisa é opção política, o que o Governo diz que faz ou que não faz. E aí não entro na fundamentação e opções que o Governo faz porque não me parece que seja esse o escopo da ACIF.

Situação diferente é dizer que em termos empresariais está visto, e fizemos o Documento Estratégico do Mar, que não é viável pela dimensão do mercado ou pela falta de dimensão do mercado.

Tenho a certeza absoluta que não há nenhum empresário da Madeira ou de fora da ilha que mediante um negócio atrativo, e haverão muitos empresários no mundo, porque hoje vivemos à escala global, que deixem de investir claramente no negócio. Não se perdem dividendos e negócios lucrativos podendo tê-los.

Por outro lado, perante o quadro económico e fiscal do País e da Região, parece-me que não é exequível desviar milhões para subsidiar uma operação. Com a particularidade de, se for para subsidiar uma operação, tem que ser para todos. Mas isto é uma opção política. Os recursos são escassos e é preciso saber o que se gasta com a Saúde, a Educação, o Turismo, e por aí adiante. Nas opções políticas não falo porque estão devidamente legitimadas pelo voto e aqui são também escrutinadas no momento da eleição.

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