Combater a inflacção: um tempo de algum sacrifício e perseverança

É inegável que nos deparamos globalmente com um atípico surto inflaccionista, em muito determinado  por circunstâncias disruptivas que a guerra na Ucrânia fez explodir, nomeadamente na questão central do fornecimento e do preço dos bens energéticos e também dos bens alimentares de base.

É inegável que nos deparamos globalmente com um atípico surto inflaccionista, em muito determinado  por circunstâncias disruptivas que a guerra na Ucrânia fez explodir, nomeadamente na questão central do fornecimento e do preço dos bens energéticos e também dos bens alimentares de base. Mas que despoletou a nível geral todo um processo de contaminação.. Ou seja deparamos com uma inflação mais originada por restrições na oferta agregada. Deve entretanto ser relevado que a tendência de subida dos preços vinha de trás, para o que terá contribuído os efeitos da pandemia no funcionamento das cadeias de produção( lado da oferta) e uma certa política monetária de sabor expansionista levada  a cabo durante vários anos pelo BCE a que acresceu o apoio financeiro a diversos agentes económicos durante o surto da pandemia ( aqui do lado da procura).

Como quer que seja ouve-se dizer  com frequência  e  com razoabilidade que a aceleração do ritmo da inflacção tem hoje em dia origens mais próximas duma típica crise da oferta.

Mas atenção já não é de aceitar aquilo que muitos comentadores mal avisados ou desconhecedores  vêm proclamando no sentido de admitirem por ser do lado da oferta as causas da atual inflação não deveria haver travões ao incentivo da procura agregada , designadamente a subida proporcional dos salários  e de outros rendimentos.

Mas aqui enganam-se! Pois em termos macroeconómicos nunca se pode isolar a variável oferta agregada da correspondente procura agregada , as quais em termos de mera representação gráfica analítica se cruzam num determinado ponto a que equivale um certo nível de preços.

Se considerarmos que o surto inflaccionista generalizado – por ser um “imposto” injusto que cava ainda maiores desigualdades sociais e porque a prazo vai minando os alicerces duma economia em termos da sua própria competitividade -. constitui na política económica do momento uma prioridade temporal ( e parece ser esse o caso no âmbito da conduta dos diversos Bancos Centrais) então aqueles que defendem estímulos à procura no atual quadro de restrições da oferta ,  têm que estar conscientes que, infelizmente, tal tenderia a gerar num contexto já extremado uma espiral de subida dos preços que é preciso exterminar ( mesmo que o produto conheça  eventual crescimento).

Atenção pois às reivindicações – legítimas e individualmente justas – de subidas proporcionais de certos rendimentos -onde se incluem os salários e pensões- para compensar níveis de inflação que mesmo admitindo-se algo conjunturais ( embora reconheçamos uma certa incerteza)  decisões que satisfaçam tal onda de reivindicações contrariam a prioridade atribuída que é o combate bem focado na desaceleração rápida da inflação. Claro  que no âmbito das decisões políticas  deve ressaltar uma apurada sensibilidade social que assegure esforços nos apoios sociais e mesmo no  indicativo domínio salarial público até onde for sustentável e, duma forma flexível, não puser em perigo a margem orçamental, margem esta, diga-se, agora robustecida  com a “ inflaccionada” cobrança de impostos que confere uma maior folga.. Mas, em suma, tenhamos contudo muita prudência ao afirmar que pelo facto da inflação ter sobretudo origem no lado da oferta podemos estimular  sem especial contenção a procura, nomeadamente via aumentos salariais significativos, já que estes constituem fator de pressão sobre a procura.

Sejamos sérios, a economia tem que acelerar desde já a criação de condições para saber gerar no futuro maior riqueza, com empresas mais dimensionadas, pois só ultrapassando o problema de escala é que se consegue superar o “cancro” que é a baixa produtividade média da economia portuguesa.

E  inevitavelmente, num mundo economicamente globalizado em que Portugal se insere, teremos que ter consciência que tempos mais duros e austeros se avizinham( uma meta será ser curta a sua duração) o que não exclui  que desde já prossigam as acções de modernização da economia e se antecipem reflexões devidamente comunicadas assumindo um futuro com esperança através de reformas/ mudanças que passam também necessariamente por mudanças de mentalidade quer no Estado quer da classe empresarial privada. O que leva tempo!

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