Como empobrecer em três meses

À Manuela passou a faltar dinheiro quase todos os meses, o que a faz viver numa angústia permanente, latente e inquieta. E, claro está, não há lugar a poupanças, deixou de haver orçamento para lazer, ou sequer para as viagens habituais à terra dos pais.

Era uma vez a Manuela, uma mulher que antes do início da guerra na Ucrânia tinha um salário suficiente (mais) para fazer frente a todas as necessidades, contas, despesas e até alguns caprichos, como: jantar fora e comemorar a vida com familiares ou pessoas amigas. A guerra na Europa começou e, três meses depois, a Manuela passou a auferir um salário suficiente (menos), não porque tenha diminuído, mas porque tudo tem agora uma carga financeira muito mais pesada. E foi assim que empobreceu em muito pouco tempo, quando o valor total das despesas se tornou superior ao valor total do salário mensal.

O salário desta mulher de 45 anos, residente numa cidade portuguesa de média dimensão fora dos chamados grandes centros, ronda os 1.300 euros, e tornou-se muito curto para continuar a ter uma vida semelhante à que tinha até fevereiro deste ano. As contas engrandeceram descontroladamente e nem tempo houve para antecipar tal descalabro. “Dizem que é a coisa da inflação”, ouviu dizer no café de bairro que agora frequenta mais raras vezes, para evitar mais um gasto. Ela, sempre mais interessada na palavra do que no número, só entende que, para ser consequente com a sua palavra contratual – e não só –, tem de abdicar de um conjunto de hábitos, bens e atividades que, mesmo em tempos de pandemia, se viu obrigada a repensar.

Mas vamos a um dia da vida desta mulher. Ela é funcionária numa empresa multinacional, num cargo de chefia, vive sozinha e não tem filhos. Começa o dia, habitualmente, às 7h30, toma banho, maquilha-se, engole o pequeno-almoço, desliga todos os aparelhos em casa, sai para a rua, pega no carro e vai para o trabalho.

Ora, vamos a contas: a água, apesar de absolutamente essencial, está mais cara e mais rara; os produtos de higiene pessoal e íntima, que parecem agora ser bens supérfluos (para quê comprar pensos higiénicos ou tampões?!), estão mais caros; a renda passou de 400 para 450 euros/mês, o que representa a maior despesa nas contas de Manuela; a prestação do carro manteve-se nos 223 euros/mês, a segunda despesa mais relevante da contabilidade de Manuela; já o combustível que o faz circular – não tem alternativa de transporte público para chegar ao trabalho – passou de uma média de 100 euros/mês para quase o dobro.

Assim, e depois das compras de supermercado e outras despesas, tanto regulares, quanto imprevistas, o que sobra no final do mês é nada e, não raras vezes, recorre ao cartão de crédito para pagar contas extra, como revisão do carro, avarias de eletrodomésticos ou um tratamento imprescindível de saúde. E, claro está, não há lugar a poupanças, deixou de haver orçamento para lazer, ou sequer para as viagens habituais à terra dos pais, a umas centenas de quilómetros da cidade onde vive.

À Manuela passou a faltar dinheiro quase todos os meses, o que a faz viver numa angústia permanente, latente e inquieta. Sim, mesmo que esta mulher ganhe 1.300 euros, não viva em cidades como Porto ou Lisboa, mesmo que não tenha filhos em idade escolar, mesmo que não tenha filhos de todo. O cenário é, certamente, muito cruel, mais ainda para famílias que perderam a capacidade de, por exemplo, manter os seus dependentes a estudarem no ensino superior (onde se notou um aumento muito significativo de dificuldades financeiras de vária ordem).

Assim sendo, e caso não haja um travão a fundo nesta escala vertiginosa do custo de vida, a nossa realidade – tal como a conhecemos há anos – alterar-se-á de forma dramática e potencialmente irreversível.

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