Conferência de Xangai: o telefonema de Joe Biden mudou tudo

“Um erro gigantesco”. Foi assim que o presidente norte-americano avisou – mas não ameaçou – que seria entendido qualquer apoio da China à Rússia. A Casa Branca diz que não há evidências de apoio da China em armas.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, revelou esta segunda-feira que conversou via telefone com o seu homólogo Xi Jinping depois de o presidente da China se ter encontrado com o presidente russo Vladimir Putin por ocasião da inauguração dos Jogos Olímpicos de Inverno, no início do ano.

Em extensa entrevista a uma cadeia de televisão norte-americana, Biden explicou que o tom não foi de ameaça: “Eu disse: se acha que os norte-americanos e outros continuarão a investir na China depois da violação das sanções que foram impostas à Rússia, acho que está a cometer um erro gigantesco. Mas a decisão é sua”.

“Até agora, não há indicação de que a China tenha enviado armas ou outras coisas que a Rússia queria”, disse Biden. A profunda dependência da China face ao comércio com o Ocidente significa que Pequim não vai querer fazer nada que prejudique a sua economia. É esta a premissa de Washington, que, sete meses depois do início da guerra, se mantém válida.

A China lançou à Rússia uma tábua de salvação económica desde a invasão, mas as medidas também beneficiaram Pequim: o Império do Meio posicionou-se como um mercado alternativo para produtos russos e como um grande cliente de combustível russo barato. “Just business”, como podia dizer Xi Jinping, que tem feito uma gestão equidistante do problema.

Na cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, na semana passada em Samarcanda, Putin fez tudo para implicar a China num apoio mais claro à Rússia, mas saiu do Uzbequistão sem nada de muito palpável. Putin admitiu que Xi Jinping expressou “perguntas e preocupações” sobre o que a Rússia chama a sua “operação militar especial” na Ucrânia – o que foi entendido por todos os comentadores ocidentais como uma forma de deixar claro que o apoio não para crescer. Pelo contrário: face a um crescimento do PIB chinês em desaceleração, Pequim não quer ouvir falar de guerras em lado nenhum e quer, ao contrário, regressar ao pleno ambiente de negócios em que o mundo se transformou.

Joe Biden disse também que as forças dos Estados Unidos defenderiam Taiwan no caso de uma invasão chinesa, numa das suas declarações mais explícitas sobre a matéria, depois de ter sido pouco claro das duas últimas vezes que o abordou.

Na entrevista à “CBS”, Biden pressionou Putin a não usar armas nucleares táticas ou químicas para compensar uma série de derrotas no campo de batalha.

Mais para consumo interno, o presidente disse ainda que a pandemia de Covid-19 nos Estados Unidos “acabou” e previu que o seu governo controlaria a inflação – a principal razão para os seus fracos índices de aprovação e a razão pela qual os republicanos acreditam que podem assumir o controlo do Congresso nas próximas eleições intercalares de novembro. “Vamos controlar a inflação”, prometeu o líder norte-americano – que, para isso, conta com a Reserva Federal e a previsível subida das taxas de juro – que na próxima quarta-feira pode chegar aos 100 pontos base, bem acima dos 75 pontos inicialmente previstos.

O problema de Biden é que o aumento das taxas de juro vai reter investimentos, diminuir a procura de trabalhadores e cortar o consumo interno. Ou, dito de outra forma: a recessão é o que está no horizonte face às políticas monetárias da Reserva Federal – e por muito que esta seja curta, estará com certeza em pleno no início de novembro, a quando das intercalares.

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