Confusão na União Europeia em torno do gás já começou

A Comissão Europeia quer um teto máximo para o preço do gás importado da Rússia, mas a sua quota é de apenas 9%. A Itália quer um teto para todo o gás que entra na União e a Holanda não quer ouvir falar em tetos. A Noruega, atual maior fornecedora, também não. Tudo para discutir a 9 de setembro.

Reuters

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou um pacote de cinco medidas energéticas urgentes e de implementação imediata a nível dos Estados-membros para fazer face aos “preços astronómicos da eletricidade”.

A medida mais polémica prevê um preço máximo imposto ao gás importado da Rússia, a partir deste momento. “Temos de cortar os lucros da Rússia, que o Kremlin depois usa para financiar a guerra”, disse Von der Leyen, sublinhando que neste momento apenas 9% do gás recebido pela Europa vem da Rússia.

E é aqui que reside o problema. Se o teto máximo de venda do gás implicar apenas aquele que é comprado à Rússia, o impacto será extremamente limitado. Neste contexto, a Itália está a propor que qualquer teto de preço do gás natural seja aplicado a todas as transações com entrega em centros da União e não apenas às importações da Rússia.

De acordo com a proposta italiana, “todas as transações físicas e financeiras em todos os hubs europeus devem estar sujeitas ao teto de preço (ou seja, importações da Rússia, mas também outras importações, incluindo produção doméstica de gás da UE, TTF, e também outros hubs)”, diz o documento.

O limite proposto pela Comissão Europeia não foi revelado, mas para a Itália deve ser bastante alto em relação aos níveis anteriores à guerra, temporário, revisitado regularmente e levar em consideração os preços internacionais do GNL.

Bruxelas tem vindo a negociar com fornecedores como os Estados Unidos, Noruega (que já fornece hoje mais gás à Europa que a própria Rússia), Azerbaijão e Argélia, entre outros.

O primeiro-ministro da Noruega e o chefe da Comissão Europeia não discutiram a fixação de um teto de preço para o gás norueguês vendido à UE durante as negociações na quarta-feira, disse o governo norueguês.

A Noruega, que não é membro da União, tornou-se o maior fornecedor de gás após os cortes nas exportações da Rússia, dando à nação nórdica uma receita recorde da sua indústria de petróleo à medida que os preços disparavam. “Um teto para os preços do gás não fazia parte da conversa”, disse o primeiro-ministro norueguês Jonas Gahr Stoere em comunicado após um telefonema de Ursula von der Leyen para debater o assunto.

Stoere disse que é natural que a Noruega tenha um diálogo próximo com a União sobre a difícil situação da Europa, mas alertou contra a introdução de medidas com “consequências não intencionais” que possam piorar o acesso à energia.

Entretanto, a Holanda, que já se opôs a um teto de preço do gás, apoiará uma proposta da União que visa especificamente o gás russo, disse um porta-voz do Ministério da Energia à agência de notícias Reuters. Os holandeses também são a favor de tornar obrigatória uma redução voluntária de 15% da procura de gás natural no bloco, mas nada mais que isso, disse o porta-voz Pieter ten Bruggencate.

“A economia de energia é de longe a opção preferida para a Holanda porque acreditamos que isso ajudará a reduzir os preços”, disse ele. “Vemos isso como um problema de procura, em vez de um problema de oferta”.

Embora o governo holandês não favoreça os tetos de preços em geral, apoiará uma proposta feita pela presidente da Comissão Europeia sobre o gás russo. “Dessa forma, podemos atingir diretamente as finanças russas e isso pode ser feito sem perturbar muito o mercado mais amplo”, disse Bruggencate. “A opção de um teto de preço russo parece ter amplo apoio”.

A responsável da União garantiu que o novo teto pode ser posto em vigor “muito rapidamente”. Em dúvida fica precisamente a questão da atual exposição das empresas ao gás russo. Da ótica das empresas, o problema não se resolve com a imposição de um teto máximo ao faz russo, mas sim com a imposição de um teto máximo ao gás vendido na União Europeia, tenha ele a proveniência que tiver.

Por exemplo, a federação europeia do sector têxtil, o Euratex, já exigiu uma medida geral para o preço do gás, com um teto máximo de 80 euros por MG/W, mas ainda não obteve resposta. Vários empresários do sector já disseram Jornal que apoiam a medida.

A Comissão colocará o tema em debate na reunião extraordinária de energia da próxima sexta-feira, 9 de setembro.

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