Consultas de psicologia e psiquiatria no museu? Conheça o projeto inédito lançado pelo maat e Manicómio

Podem os museus ser espaços transformadores de bem-estar? Pode a arte ser um elemento catalisador da saúde? Maat e Manicómio acreditam que sim e promovem consultas de psiquiatria, psicologia e terapia no museu.

Tudo começou há dois anos no Manicómio, na zona do Beato, em Lisboa, quando arrancou o projeto piloto “Consultas sem Paredes”. Agora, em 2022, as consultas que já não tinham paredes passam a estar nos espaços interiores e exteriores do museu, fora dos habituais gabinetes médicos. O “Roteiro para a Saúde Mental”, que junta o maat e o Manicómio para pensar o papel dos museus na doença mental e na redução do estigma em torno dela, passa a integrar esta iniciativa que oferece consultas de psiquiatria, psicologia e terapia num espaço que se quer, cada vez mais, promotor da transformação dos visitantes.

Em que sentido? Da mudança de mentalidades, do questionar o mundo onde nos inserimos, do pensar a arte como um elemento catalisador da saúde, da ocupação do espaço para fins menos óbvios. Daí que as consultas em saúde mental – psiquiatria, psicologia, terapia familiar ou de casal – decorram quer no interior do maat e da Central Tejo, quer nos espaços exteriores com vista para o rio e jardins envolventes.

Esta iniciativa inédita constitui um desafio tanto para os profissionais de saúde mental, como para o museu. Mas como realça Patrícia António, psicóloga clínica e psicoterapeuta com mais de 20 anos de experiência, parte integrante da equipa inicial de técnicos de saúde mental no maat, além de pioneira, “é uma resposta inovadora, a acontecer num espaço também ele inovador, aberto ao mundo e à criatividade, com os olhos postos na mudança de paradigma em saúde mental. Assim é possível vencer estigmas, restaurar a confiança e construir novas alternativas de acessibilidade a cuidados especializados em saúde mental”.

As consultas são realizadas por técnicos de saúde mental, entre psicólogos, psiquiatras e terapeutas, ligados ao projeto Manicómio. Mas há a intenção de ampliar o leque de profissionais envolvidos através de uma open call. Tudo isto tendo em mente alargar o conceito de museu, numa lógica interdisciplinar que cruza a área da saúde com as artes visuais e a arquitetura do maat.

Como reforça João Pinharanda, diretor do maat, a ideia é que o museu contribua para uma vida melhor: “Queremos um museu que evolua connosco e nós com ele; um museu com a capacidade de estabelecer uma relação entre a criação artística, os espaços institucionalizados para a sua apresentação e a saúde mental, promovendo assim uma ‘contaminação’ entre a arte e a saúde mental”.

Citando Sandro Resende, fundador do Manicómio, “este conceito cria uma abordagem que repensa o espaço, a obra, a ação coloca o foco no espectador e no terapeuta. Mais do que consultas, o que o Manicómio cria no maat é um espaço seguro, confidente e inovador”.

Como tudo começou…

Por uma provocação em forma de pergunta. “Porque posso ter apenas acesso a um psiquiatra no hospital ou gabinete fechado, em que tenho de esperar semanas ou meses por uma consulta, e sofrer do medo e estigma de me reconhecerem?”, questiona Catarina Gomes, do Manicómio.

A resposta passou pela simples constatação de que existem espaços “incríveis”, diz Catarina, que podem ser aproveitados em prol do “nosso bem-estar”. E sublinha a urgência de “mudarmos o paradigma da relação que temos com a nossa saúde mental”, da acessibilidade ao bem-estar, um tema de saúde pública, que continua ainda hoje a ser tratado de forma “totalmente privada e estigmatizante”. E remata dizendo que “o Manicómio, como associação artística, quer mostrar novos caminhos criativos para a saúde mental”.

… e como aceder às “Consultas sem Paredes”

As consultas têm um preço único, de 35 euros, para promover o acesso a serviços de saúde mental de pessoas com menor poder económico. Além disso, não há lista de espera para as mesmas. Basta agendar por email através do endereço consultas.maat@manicomio.pt.

O conceito veio para ficar e implementar noutras geografias. Caso do concelho de Cascais, onde as “Consultas sem Paredes” vão instalar-se durante o próximo ano, para capacitar profissionais de saúde mental para a diversidade cultural e migrantes, em paralelo a um projeto de radares comunitários no âmbito da saúde mental. Qualquer entidade ou pessoa interessada em integrar ou criar um núcleo das Consultas, poderá fazê-lo enviando um email para info@manicomio.pt .

Para conhecer melhor o projeto “Consultas sem Paredes”, como funciona, qual a metodologia ou quem são os técnicos de saúde mental envolvidos, visite www.manicomio.pt/consultassemparedes

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