Contraste

O Brasil é um país de inúmeras liberdades, mas é também morada de outras tantas intolerâncias. É uma conclusão a que se chega com relativa rapidez, quando se mora por aqui há um par de meses. O país do Carnaval, da “bunda” de fora e do beijo na boca solto, é também, o país do […]

O Brasil é um país de inúmeras liberdades, mas é também morada de outras tantas intolerâncias. É uma conclusão a que se chega com relativa rapidez, quando se mora por aqui há um par de meses.
O país do Carnaval, da “bunda” de fora e do beijo na boca solto, é também, o país do racismo, da discriminação e da falta de respeito.
“A cada hora, um gay sofre violência no Brasil”. A notícia d’ O Estado de São Paulo retrata as dezenas de casos que têm chegado aos media nos últimos meses. Por todo o Brasil, homossexuais são espancados e assassinados na rua, sem aviso, só porque têm uma determinada orientação sexual. A título de exemplo, o caso de André Baliera, de 29 anos, que foi espancado violentamente no bairro de Pinheiros, zona nobre da cidade de São Paulo. Voltava um dia para casa, quando foi surpreendido por insultos e acabou por entrar numa discussão. Perdeu-a com murros e pontapés, que lhe deixaram a cara destruída e o orgulho ferido.
Sem chances de se recompor do susto ficaram, só em 2014, um total de 257 homossexuais, que morreram assassinados em atos descriminatórios. Um número absurdo e assustador.
Infelizmente, basta uma simples pesquisa no Google com a frase “gays agredidos no Brasil” para se ter uma ligeira noção da dimensão do problema. A solução ainda está por vir. Até lá, não haja dúvidas de que os registos de homofobia vão aumentar e, com eles, as tragédias.
Mudando de tom, mas não inteiramente de tema, recordo um episódio igualmente emblemático, que vivi há quase um ano, e que retrata bem esta dicotomia de que falo.
Encontrava-me no Rio de Janeiro, em Ipanema, no primeiro fim-de-semana de Verão. Chegando à praia, dei-me conta de um aglomerado de pessoas na areia, uma equipa de reportagem televisiva e várias pessoas com telemóveis em riste (para não perderem pitada). “Um ator de uma novela”, previ. Mas não. Tratava-se de um protesto de mulheres em topless.
Topless, aquele fenómeno absolutamente banal, da Costa à Linha, com o qual – todos os verões – os portugueses convivem. Sabem?
Bom, deste lado do Atlântico é quase tão extraordinário como um elefante, vestido de bailarina, a andar de bicicleta. Ou seja, raríssimo!
“Toplessaço”, o nome dado ao movimento, foi motivado pela repressão policial a mulheres que querem fazer topless na praia. No Brasil, topless é crime e a autora desse vil ato é presa e autuada por “ato obsceno”. O verão português daria pano para mangas aos agentes da polícia, coitados.
Não é irónico que no Rio de Janeiro, onde as mulheres usam e abusam do fio dental e onde as partes de cima dos biquinis são míseros microscópicos triângulos de pano, seja crime mostrar o peito quando se apanha sol? E desfilando na Sapucaí, já se pode?
Questiono-me de onde vem esse puritanismo. Poderia ser herança dos portugueses, conhecidos pela defesa da tradição e dos bons costumes. Mas se assim é, como raio nós portugueses aceitamos a prática do topless com tamanha naturalidade?
Talvez os portugueses sofram dos mesmos preconceitos que os brasileiros, mas apenas não façam nada a respeito. Pelo menos, não tantas vezes. Portugal é o país do “parece mal” e acho que isso nos protege da nossa própria intolerância. Dizemos mal nas costas, ao vizinho, ao colega, mas tentamos deixar os gays e as mulheres em topless, entre outros, sossegados. Afinal, Deus nos livre de sermos apontados como retrógados.
Se calhar, no Brasil, a liberdade e o conservadorismo andam de mãos dadas. Talvez seja a liberdade, de dizer e fazer o que se pensa, a mola impulsionadora dos atos de violência.
Será?

Juliana Pereira Martins
Jornalista
Correspondente no Brasil

Recomendadas

Por favor, acertem a manga do casaco!

Este governo de António Costa, quando tudo indicava reunir as condições devidas para uma navegação calminha, anda ele próprio a criar as suas ondas sucessivas de ruído. Em seis meses de governação, as ondas de maré já se desenvolvem com um barulho ensurdecedor. É tempo de dizer, senhores ministros, falem entre si antes de pôr […]

Sistema financeiro responde ao desafio da transição climática

1. Qual a importância do sistema financeiro e dos bancos em particular para fomentar a transição climática?

Uma banca portuguesa cada vez mais ‘ibérica’

Uma fusão entre BPI e Novobanco poderia fazer sentido à luz daquela que tem sido a estratégia do CaixaBank para crescer no mercado ibérico.