Contribuinte português oferece 2,7 mil milhões de euros à Lufthansa. Aceitaria?

A TAP só deveria ser vendida sob a condição de o contribuinte recuperar – direta ou indiretamente – o que lá investiu.

Se a nacionalização da TAP foi um erro colossal, a sua privatização acelerada será um ainda maior. Além de assumir o seu erro, o governo terá de entender que o simples desejo de vender a TAP não basta. É essencial existir um comprador o que, na aviação, não abunda; e é essencial ser-se honesto para com o contribuinte português.

Haverá alguma empresa estrangeira (aérea ou não) interessada em investir numa companhia aérea que se insere num país onde 99,9% do tráfego de passageiros é controlado por um único operador aeroportuário, onde a neutralidade do regulador é colocada em causa pelo Tribunal de Contas, onde o sistema judicial é lento e onde um partido do arco governativo desfez a privatização feita por um anterior governo? As respostas a estas perguntas inserem-se na chamada “due diligence” que qualquer empresa privada responsável fará sobre o ambiente empresarial aéreo português antes sequer de entrar no dossier financeiro concreto da TAP ou do novo aeroporto. Sem resolvermos este problema de fundo, não haverá uma privatização vantajosa para a TAP.

O dinheiro dos contribuintes injetado na TAP serviu para realizar uma mini-liquidação e uma restruturação. Uma mini-liquidação de tudo aquilo que atrapalha(va), nomeadamente a participação na empresa de manutenção do Brasil. Só essa liquidação custou mais de mil milhões de euros. A restruturação serviu para reduzir a dimensão da empresa, ou seja, pagámos muito para ter menos. Esta TAP mais “leve” foi paga por cada um de nós, contribuintes individuais e empresariais. Sem nós, a TAP teria fechado.

Quanto valerá então uma TAP mais “leve”? Se pegarmos no exemplo de uma companhia semelhante à TAP (frota, posicionamento, empregados, rotas), a Air Europa valia, num negócio quase concluído com a IAG, 500 milhões de euros. Vamos supor que esse valor coincide com o da TAP. Nesse caso, isso significaria que o objetivo desta injeção de capital público na TAP foi o de a tornar suficientemente atrativa para ser eventualmente comprada por 500 milhões por uma… Lufthansa? E os outros 2,7 mil milhões que “investimos”, foram uma espécie de “prenda” oferecida ao capital estrangeiro?

A TAP só deveria ser vendida sob a condição de o contribuinte recuperar – direta ou indiretamente – o que lá investiu. Ou seja: ou a Lufthansa (ou quem quer que seja) nos paga 3,2 mil milhões de euros à cabeça ou a TAP gera um impacto indireto para o contribuinte português de 2,7 mil milhões antes de ser vendida por 500 milhões. Isso significa, obviamente, a escolha de um outro modelo de gestão que não aquele que a TAP continua a praticar e cujo impacto indireto para a economia Portuguesa, na sua globalidade, é marginal por apenas se limitar ao tráfego de/para Lisboa e, ainda assim, se focar nos passageiros que apenas trocam de avião para outros destinos, atraídos pelos preços de saldo praticados através do “hub” da Portela.

Privatizar sim. Já e à pressa, “jamais”.

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