O contributo da Literatura para o mundo de Trump

Ninguém descreveu tão bem como Bret Easton Ellis as criaturas psicóticas que emanam de Wall Street e que durante tanto tempo fizeram parte do mundo de Donald Trump.

Após 8 de novembro, fomos submersos no dilúvio de politólogos, economistas, sociólogos, comentadores e batalhões de jornalistas que passaram dias a traçar o perfil do novo presidente dos EUA e de um futuro que, de súbito, ficara manchado pelo discurso apocalíptico. Chocados e famintos de notícias que negassem essa realidade atordoante, os americanos alimentaram-se de artigos esperançosos que anunciavam que o Colégio Eleitoral ainda podia travar Trump a 19 de dezembro, se escolhessem Hillary Clinton.

Uma petição desesperada que já reúne quase meio milhão de assinaturas urge o Colégio Eleitoral a contrariar o voto de dia 8 de novembro. É uma fantasia impossível de se concretizar, mas é mais fácil alimentar ilusões do que ver como os democratas falharam perante Hillary Clinton e foram incapazes de demonstrar entusiasmo — que era vital — pela sua candidata.

Pergunto-me como poderá alguém da área de edição de livros trazer algo de novo para esta discussão? Verdade seja dita, o fim da nossa civilização já foi previsto e ocorreu dezenas de vezes na literatura. Senão, vejamos. Não tenho dificuldades em recomendar duas ou três obras seminais sobre distopias em contextos políticos. Temos as mais óbvias como 1984 de George Orwell, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley ou The Dispossessed de Ursula K. Le Guin, não ignorando o facto de hoje haver uma nova geração de autores contemporâneos, de língua inglesa, especialmente empenhados nas questões ambientais, políticas e sociais do nosso tempo.

Mas não precisamos de recorrer apenas à literatura de ficção científica distópica que já soube antecipar os caminhos perigosos que a nossa civilização irracionalmente toma. Do futuro podemos viajar diretamente em direção ao passado, às histórias sobre a Berlim boémia dos anos 30, durante os anos da República de Weimar, contadas por Christopher Isherwood, e que, através dos seus retratos subtis, traça o declínio de uma elite que, quanto mais dançava, mais se deixava cegar perante a ascensão do nazismo.

Podemos ler a poesia de almas revoltadas como Federico García Lorca ou Miguel Hernández, ambos vítimas da Guerra Civil de Espanha, que viram o rosto mais desolador do fascismo e sofreram às suas mãos. Podemos ler, se tivermos coragem, o testemunho dilacerante de Primo Levi sobre a humanidade no meio da desumanidade no seu livro Se Isto é um Homem, sobre o ano em que esteve detido nos campos de extermínio de Auschwitz.

Curiosamente, o melhor artigo pós-Trump que li chama-se “A Time for Refusal” de Teju Cole e aborda a peça absurda O Rinoceronte, do franco-romeno Eugène Ionesco, como uma extraordinária reflexão sobre o que leva um povo a aderir à ideologia dos nacionalismos.

Mais recentemente, a corrupção humana causada pelo capitalismo foi também notavelmente abordada em termos literários. Ninguém descreveu tão bem como Bret Easton Ellis as criaturas psicóticas que emanam de Wall Street e que durante tanto tempo fizeram parte do mundo de Donald Trump. Afinal, o psicopata americano Patrick Bateman é um fã assumido de Trump.

Temos vindo a ignorar os testemunhos literários do século XX. Tantos nos avisaram e partilharam os seus segredos e medos mais profundos. Tantos os versos, as peças, os romances que traçam linhas ténues entre ficção e biografia. Por isso, pergunto de novo: como pode alguém da área de edição de livros contribuir para a discussão? Mantendo viva a literatura, dando várias vidas a um livro, relembrando os registos do passado e do presente, e os nossos receios sobre o futuro. Dando atenção aos avisos e apelos de homens e mulheres que sofreram na pele as convulsões da História e nos deixaram o ensinamento mais importante de todos através da sua escrita: o de não cometer os mesmos erros que a sua sociedade cometeu.

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