COP27: Divergências sobre meios de financiamento marcaram cimeira

Foi aprovado um acordo que prevê a criação de um fundo para financiar danos climáticos sofridos por países “particularmente vulneráveis”, mas a cimeira ficou marcada por divergências sobre financiamento para combater as alterações climáticas.

A COP27 evidenciou as divergências entre os países sobre as medidas e os meios de financiamento para combater as alterações climáticas, que estão a afetar o planeta com desastres naturais mais frequentes, nomeadamente nas nações mais pobres.

No último dia da conferência, foi aprovado um acordo que prevê a criação de um fundo para financiar danos climáticos sofridos por países “particularmente vulneráveis”, numa decisão descrita como histórica.

O acordo enfatiza a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” aos impactos “económicos e não económicos” das alterações climáticas.

A 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas começou em 06 novembro e acabou hoje em Sharm-el-Sheik, no Egito, juntando mais de 35 mil participantes, nomeadamente vários líderes de países, com cerca de duas mil intervenções sobre mais de 300 tópicos.

Numa mensagem vídeo na abertura da conferência, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, avisou que o “planeta está a enviar um sinal de sofrimento”, referindo-se a uma situação “crónica de caos climático”.

Guterres pediu também que os conflitos mundiais não sejam usados como desculpa para fugir às responsabilidades relativas ao clima, defendendo que a humanidade tem de escolher entre “solidariedade ou suicídio em massa”.

Os impactos das alterações climáticas têm-se multiplicado, como mostram os diversos desastres que atingiram o planeta em 2022, desde as inundações históricas no Paquistão às repetidas ondas de calor na Europa, além de furacões, incêndios, ou secas.

Os custos dos desastres já rondam as dezenas de milhares de milhões de euros, pelos quais os países do sul do globo, mais afetados, reivindicam uma compensação financeira.

Países como os Estados Unidos, Arábia Saudita e China continuam a resistir às reformas exigidas por nações desenvolvidas e em desenvolvimento em relação às medidas a serem tomadas para o combate das alterações climáticas.

A enviada climática das Ilhas Marshall, Kathy Jetñil-Kijiner, tinha dito que o encontro deste ano deveria concordar com um fundo de compensação para desastres climáticos, conhecido como “perdas e danos”. Os países africanos também esperavam que o fundo fosse aprovado e efetivamente aplicado.

O Presidente francês, Emmanuel Macron assegurou, à margem da COP27, que iria pressionar os “países não europeus ricos”, e em particular os Estados Unidos, a pagarem a sua parte para ajudar os mais pobres diante das alterações climáticas.

“Os Estados Unidos e a China têm de estar realmente envolvidos, porque os europeus são ‘os únicos a pagar’(…) “Devemos, portanto, pressionar os países ricos não europeus, e dizer-lhes ‘vocês devem pagar a sua parte’”, disse Macron.

A União Europeia (UE) apelou, em intervenções na conferência da ONU sobre o clima (COP 27), no Egito, a um maior e imediato empenho global na luta contra as alterações climáticas e na defesa da vida.

“O tempo das promessas que se somam acabou; chegou o momento do compromisso, da realização”, disse o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.

A UE e quatro dos seus Estados-membros vão contribuir com mil milhões de euros para ajudar o continente africano a adaptar-se às alterações climáticas, anunciou o comissário europeu Frans Timmermans durante a COP27.

O bloco europeu comprometeu-se ainda, durante a conferência, a elevar as suas ambições climáticas e atingir a redução de emissões de gases com efeito de estufa em 57 por cento até 2030.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, rejeitou firmemente qualquer “renascimento mundial das energias fósseis”, ao falar durante a reunião no Egito.

Para Scholz, a transição para energias renováveis “não é apenas um imperativo climático, económico e ambiental”, mas também “um imperativo de segurança”, ilustrado pela dependência alemã do gás russo.

Já o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, pediu para que “todos os países” reduzissem as emissões de gases com efeito de estufa, durante a sua intervenção na conferência da ONU, assegurando que os Estados Unidos estão a fazer a sua parte nesta luta para limitar o aquecimento global.

“Este é um dever e uma responsabilidade da liderança global. Os países que estão em posição de ajudar devem auxiliar os países em desenvolvimento, para que estes possam tomar decisões climáticas decisivas”, acrescentou o Presidente norte-americano.

Biden disse ainda que a invasão russa da Ucrânia, a 24 de fevereiro, tornou ainda mais urgente a necessidade de eliminar a dependência dos combustíveis fósseis.

Os Estados Unidos anunciaram na COP27 um contributo global de 250 milhões de dólares (cerca de 240 milhões de euros) para financiar ações de apoio à adaptação climática em África, anunciou o Departamento de Estado norte-americano.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, defendeu, num vídeo enviado à COP27, que o planeta “não pode permitir-se disparar um único tiro”, acusando a Rússia de ter desviado o mundo das necessárias “ações coletivas” para combater as alterações climáticas.

O Presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse durante a conferência que exigiria aos países ricos que contribuíssem para os países pobres afetados pelas alterações climáticas e defendeu uma nova governança global.

“Em 2009, os países presentes na COP15 em Copenhaga comprometeram-se em mobilizar 100 mil milhões de dólares [96,2 mil milhões de euros] por ano, a partir de 2020, para ajudar os países menos desenvolvidos a enfrentarem a mudança climática. Este compromisso não foi e não está sendo cumprido”, criticou Lula da Silva.

“Isso nos leva a reforçar, ainda mais, a necessidade de avançarmos em outro tema desta COP27. Precisamos com urgência de mecanismos financeiros para remediar perdas e danos causados em função da mudança do clima”, acrescentou Lula da Silva, que quer levar para a Amazónia a organização da COP de 2025.

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