COPerar com oito mil milhões

Será possível negligenciar o papel da arquitetura, sabendo que é fundamental para o habitar qualificado e faz também parte de uma das indústrias mais poluentes?

Esta semana ficámos a saber que a população mundial atingiu os oito mil milhões de habitantes.

O relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2022 revela que há 100 anos não chegava aos dois mil milhões. Em 12 anos, a população cresceu mil milhões em resultado do aumento significativo da natalidade, mas também da esperança média de vida, que em 2050, deverá chegar aos 77 anos. Segundo o mesmo relatório, dentro de 15 anos vamos somar mais mil milhões de habitantes e mais da metade do aumento populacional vai ocorrer nos países menos desenvolvidos de África e Ásia.

Na mesma semana em que são revelados estes números está a decorrer a 27ª edição da Conferência das Partes da ONU (COP27) em Sharm El-Sheikh, no Egito, um evento anual iniciado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) de 1992,  que reúne 196 nações,  governantes, representantes empresariais e do terceiro setor,  para garantir o compromisso das Partes  na tomada de medidas sobre as alterações climáticas que afetam estes oito mil milhões de pessoas no planeta.

Os resultados das várias COP têm sido vertidos em vários documentos globais desde a COP1, em Berlim, com a preparação das bases do Protocolo de Quioto, na COP3 de 1997, o Acordo de Paris, na COP21 de 2015, e a criação do Mercado Global de Carbono na COP26 de 2021, conhecida como COP das empresas. Destes destacam-se dois objetivos rumo à neutralidade zero – limitar o aquecimento global 1,5ºC em comparação com o período pré-industrial, e o compromisso de um financiamento climático para mitigar os efeitos do clima extremo que coloca os países mais pobres em risco.

Neste quadro, será que os arquitetos têm voz? Será possível negligenciar o papel da arquitetura, sabendo que é fundamental para o habitar qualificado e faz também parte de uma das indústrias mais poluentes? São várias as vozes dos arquitetos que têm manifestado frustração com a dificuldade de avançar com medidas de forte impacto. Contudo, alguns passos estão a ser dados na COP27. O arquiteto Norman Foster apresentou a Declaração de San Marino, um conjunto de 11 princípios para uma arquitetura e desenho urbano sustentáveis e inclusivos.

A saber: a centralidade das pessoas; respeito pela identidade cultural; eficiência de recursos e circularidade; segurança e saúde; respeito pela natureza e sistemas e processos naturais; neutralidade climática; inteligência coletiva; resiliência, durabilidade, funcionalidade e previsão; acessibilidade de preços e acessibilidade para todos os cidadãos; cooperação interdisciplinar; e envolvimento.

O arquiteto Vicent Martinez, COO da Architecture 2030 e um dos oradores na COP27, tem sido uma das vozes ativas sobre a importância do impacto da arquitetura na descarbonização e no aumento da resiliência do ambiente construído, através da ativação de compromissos entre redes do sector privado, educação, formação e políticas públicas. Para Martinez, “Os governos não podem cumprir objectivos globais de redução de carbono sem o ambiente construído, e os projectistas têm a alavanca mais poderosa para influenciar a mudança positiva no início do processo, obtendo maiores ganhos do que os que podem ser alcançados a jusante”.

O evento também tem permitido destacar os profissionais e as práticas que podem tornam os objetivos possíveis.  Skidmore, Owings & Merrill (SOM) apresentou o conceito Urban Sequoia NOW, um sistema que pode absorver o carbono da atmosfera durante todo o ciclo de vida do edifício.

A arquitetura é essencial na inovação sustentável. Visões e práticas holísticas para assumir as urgentes metas de neutralidade climática até 2050, precisam-se – em nome dos oito mil milhões.

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