Copo meio cheio na COP26

A União Europeia deveria ter um papel muito mais relevante em termos do progresso tecnológico necessário para atingir as metas climáticas.

As alterações climáticas implicam dois tipos de resposta: mitigação do que as provoca e adaptação. Pela sua natureza, devem ser encaradas como uma maratona, sendo mais importante fazer um caminho consistente, do que chegar a acordos de princípio muito bonitos, cuja concretização nunca chega.

Em Glasgow, reuniu-se a COP26, com a generalidade dos Estados do globo, em que foram decididos os termos de aplicação do acordo de Paris, de 2015, bem como as regras de transparência sobre a forma como os países reportam as suas emissões; finalmente, acordou-se na redução da utilização dos combustíveis fósseis.

Houve desapontamento por não se ter ido mais longe, mas é preciso salientar os progressos que já se verificaram nos mercados de capitais, em que, nos últimos meses, tem havido grandes alterações, de grande aumento de exigência ambiental sobre as maiores empresas mundiais. Com o alinhamento destes conglomerados com as metas climáticas, é de esperar que muito se transmita para as outras empresas e para muitos governos.

O grande obstáculo parece ser a população em geral, mesmo de Estados não democráticos, em que os governos não eleitos têm, apesar de tudo, de tomar o pulso ao sentimento dos governados. Para números muito significativos do eleitorado, as adaptações necessárias ainda se apresentam como demasiado incómodas, caras e de utilidade pouco clara.

Em relação à necessidade de diminuir o seu preço, parece evidente a necessidade de um forte investimento no progresso tecnológico na transição climática. Em relação à utilidade, infelizmente, parece que precisamos ainda de sofrer um número suficientemente significativo de drástico e desastres climáticos para mudar o sentimento das populações.

Nos anos 60, os EUA empenharam-se em colocar um homem na Lua e fizeram um investimento gigantesco para o conseguir, alcançaram o objectivo em 1969 e geraram inúmeras inovações tecnológicas que acabaram por beneficiar as empresas privadas norte-americanas.

A União Europeia deveria inspirar-se neste exemplo e ter um papel muito mais relevante em termos do progresso tecnológico necessário para atingir as metas climáticas. Entendo que esta investigação deveria ter o âmbito mais alargado possível, incluindo psicólogos, sociólogos, cientistas sociais em geral, e ponderar e explorar muitos tipos de alternativas, incluindo novas modalidades tais como trabalhar menos horas, ganhar menos, consumir menos e poluir menos.

Como última mensagem de esperança, gostava de salientar que estas conferências são anuais e a COP27 terá lugar em 2022 no Egipto, pelo que é de esperar progressos em cada ano. De qualquer forma, sendo preferível investir na mitigação das alterações climáticas, em último caso, teremos sempre a alternativa da adaptação às mudanças que se forem verificando entretanto.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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