Costa é bom a tentar fechar dossiês

É conhecido que o primeiro-ministro António Costa não gosta de dossiês abertos e é muito interventivo. Os últimos meses comprovam essa aversão e o tema dos lesados do BES – que, de alguma forma ainda não é totalmente percetível, ficará em parte resolvido – é exatamente o reflexo desse desiderato.

E é interventivo porque procura saber e dá orientações específicas.
O mais curioso nisto tudo é que se fosse outro primeiro-ministro, por exemplo, Passos Coelho, já teria sido trucidado pela oposição ou mesmo pelos correligionários, mas Costa vive o seu “momentum” único. Consegue passar a mensagem com clareza de que dentro de um mundo turbulento vamos passando pelos “pingos da chuva”.

Bem, não será tanto assim, mas a seu tempo iremos ver as debilidades e na coluna do último dia do ano veremos o que de pior nos pode acontecer se tudo correr mal no setor bancário, talvez o tema mais importante de momento para o país.
Hoje falamos de política e do “bem-estar” que se vive entre os parceiros da geringonça. Com um PM muito ativo, que não gosta de dossiês abertos (repetimos) e que quer que se fechem (embora alguns sem soluções óbvias), só pode significar que temos um PM a preparar as autárquicas e, desde já, as legislativas. A “bandeira” está definida, tanto em termos de texto como de cores: vai apresentar-se como um político hábil que recebeu uma herança com todos os dossiês por resolver, caso da dívida pública, das PPP e dos bancos, e que em quatro anos conseguiu resolver tudo. Neste último tema, os bancos, foi crucial a sua intervenção na Caixa, no Novo Banco e, previsivelmente, no BCP.

Este “bem-estar” leva-nos a um outro nível de análise política. As primeiras indicações do “inner-cicle” da geringonça diziam-nos que Costa quer resolver tudo, forçar eleições antecipadas, obter maioria absoluta e livrar-se dos parceiros de entendimento que estariam sempre a ameaçar com ruturas. Mas tudo evolui e no caso da política as evoluções são rápidas como o vento.
Costa apercebeu-se que tem potencial de um casamento “para a vida” e sabe que, mesmo sem forçar eleições, poderá ter maioria absoluta no próximo ato eleitoral, como indicam as sondagens. Logo, não irá dispensar nem o Bloco nem o PCP, porque eles, Bloco e PCP, não dispensam ser Governo.

Com efeito, estes partidos nunca tiveram tanta visibilidade, aparecendo junto das opiniões públicas como forças políticas razoáveis com bom senso, não sendo extremistas, são construtivas, mesmo contra os seus próprios ideais e passam a mensagem de que acima de tudo está o interesse nacional. Aliás, na prática até ajudam em soluções sobre as quais não concordam. Provavelmente nunca mais vão deixar de querer ser Governo e Costa dá-se bem com eles.
Na prática, não podem “pisar” o risco, sob pena de “saltar da carruagem”, já que o PM pode eliminar qualquer um deles e não sair beliscado. Costa fecha o ano em grande. O pior está para vir. Os bancos não o vão deixar descansar em 2017.

Recomendadas

Os seis efeitos nas eleições de 2022 em Angola

O primeiro efeito é o fim da maioria qualificada do MPLA. O que significa que nenhum partido consegue per se realizar uma revisão da Constituição e que a UNITA passou a ter o poder de vetar qualquer projecto de alteração constitucional.

Mudar o futuro coletivo

Os professores devem assumir um papel ativo nas novas abordagens pedagógicas. Só desta forma será possível responder às questões de fundo do século XXI.

O Orçamento do Estado para 2023 e as empresas

A proposta de Orçamento do Estado para 2023 vai ser conhecida no próximo mês e os temas relacionados com as empresas prometem ser um dos pontos fortes do documento, a começar por uma eventual descida do IRC.
Comentários