Crescer (digital) do país: Wild Wild West instalado de RH

O problema está no facto das empresas portuguesas estarem a competir, cada vez mais, com multinacionais cada vez maiores, mas sem os mesmos recursos, e não saberem como conduzir num mundo de alta velocidade.

As conversas de gestores, as notícias, os desabafos em redes sociais ou os estudos recentes refletem uma falta de recursos humanos (RH) qualificados de um modo geral em todos os setores e, em particular, no setor do mundo digital, seja de programadores, analistas de conteúdos, marketeers, etc..

A razão é simples, o mundo dos negócios transformou-se digitalmente e tornou-se mais rápido do que o mundo geopolítico, criando tensões sociais que se estão a intensificar. E não antevejo que abrandem, bem pelo contrário.

A globalização intensifica-se e Portugal, como país, ganha oportunidades e receita no curto prazo a vários níveis, mas com elevados custos para o setor empresarial nacional, por dois grandes motivos: instalação de multinacionais com centros de desenvolvimento no nosso país, que absorvem os recursos disponíveis em Portugal, e o trabalho remoto para as empresas mundiais (europeias em particular). De notar que não sou contra qualquer um destes fenómenos, mas preocupa-me tudo o resto e o longo prazo do país.

O nível de vida em Portugal, comparado com o resto da União Europeia ou Estados Unidos, é bastante “barato”, com recursos humanos de elevada qualidade técnica, pelo elevado e bom nível de ensino superior existente, de um modo geral. A isto acresce a característica portuguesa, intrínseca da nossa cultura, de adaptabilidade a outros meios e culturas.

Mas onde está o problema?

Está no facto das empresas portuguesas estarem realmente a competir, cada vez mais, com empresas multinacionais cada vez maiores, mas sem os mesmos recursos, e não saberem como conduzir num mundo de alta velocidade. Um mundo digital e tecnológico que permite aos maiores aplicar mais facilmente o conceito “think global, act local”. Desta forma, uma multinacional que se instala em Portugal, absorve com salários internacionais “tudo à sua volta”, deixando pouco para as empresas locais. E o pouco que ainda há de qualidade procurará trabalhar em sua casa, mais uma vez com salário internacional de topo, para uma empresa lá fora.

O que sobra? Cada vez menos recursos qualificados no mundo digital para os locais, ou seja, cada vez menos “componentes” essenciais para a competitividade das empresas nacionais.

O que está a piorar ainda? As empresas nacionais andam a combater parvamente entre si, em vez de cooperarem, num verdadeiro wild wild west pelo recurso humano sobrante, oferecendo mais 50-100 euros, recorrentemente, na expectativa de resolver “aquele” projeto que tem em mãos no imediato, não se preocupando com qualquer gestão de talento dos seus recursos humanos, nem com a sustentabilidade a médio prazo da empresa.

Qual a solução? Não há muitos caminhos enquanto não tivermos um país mais desenvolvido e competitivo. Ou seja, se continuarmos a ter empresas sem eficiência e produtividade, políticos e políticas que não entendem, nem atuam efetivamente, na urgência de transformações e transições digitais dos negócios e dos recursos, teremos um país sempre pequenino e a definhar cada vez mais. Teremos empresas e serviços públicos cada vez mais incompetentes no mercado, por incapacidade de concorrer e por inflação sem controlo.

Desta forma, e não havendo muitos caminhos, todos passam por mudar a urgência de fazer diagnósticos, estudos e comissões de análise, já amplamente conhecidas as suas conclusões, para uma urgência de fazer, errar, aprender e melhorar toda a transformação de um país, das empresas e das pessoas. Só desta forma teremos a subida do nível de vida, da qualidade e qualificação dos recursos humanos e do tecido empresarial, capaz de voltar a ter em grande medida as novas gerações qualificadas em empresas portuguesas a trabalhar em Portugal para o mundo.

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