“Criou-se um clima de ódio no futebol português por parte de alguns dirigentes”, defende CEO da SIGA

Emanuel Macedo de Medeiros, o português que lidera a Sport Integrity Global Alliance (uma coligação de integridade e boa governança no desporto, com mais de 100 parceiros internacionais) foi o convidado da última da edição do programa “Jogo Económico”, da plataforma multimédia JE TV, e abordou a génese dos problemas que se eternizam no futebol em Portugal e apontou caminhos.

Estoril e Famalicão foram recentemente palcos de episódios que se julgavam erradicados do futebol: adeptos (entre eles crianças) impedidos de assistir a um jogo por vestirem a camisola do clube visitante e, pior do que isso, a serem alvo de insultos e cuspidelas, em cenas absolutamente lamentáveis e que obrigam a uma reflexão séria sobre o trabalho de fundo que é preciso ser feito numa Liga de futebol que quer ser rentável e atrativa. Emanuel Macedo de Medeiros, o português que lidera a Sport Integrity Global Alliance (uma coligação de integridade e boa governança no desporto, com mais de 100 parceiros internacionais) foi o convidado da última da edição do programa “Jogo Económico”, da plataforma multimédia JE TV, e abordou a génese dos problemas que se eternizam no futebol em Portugal e apontou caminhos. A SIGA dinamizou recentemente a terceira edição da Sport Integrity Week, um palco onde foram debatidos temas que merecem uma discussão séria, se o objetivo passa por ser bem sucedido, por exemplo, na venda conjunta dos direitos de televisão a partir da época 2028/29.

Assistimos recentemente em episódios de intolerância de adeptos rivais nas bancadas dos estádios onde atua o Estoril e o Famalicão, tudo porque os adeptos visitantes tinham vestida a camisola da sua equipa. Numa Liga que se quer rentável e que quer atrair receitas e adeptos, porque é que temos clubes a instituir estas regras?

Quero lamentar profunda e veementemente estas demonstrações exacerbadas de tribalismo que continuam a denegrir a imagem de um sector, de um cluster económico e precisa urgentemente de medidas de fundo para se reerguer e para merecer a confiança dos adeptos, das instituições, dos patrocinadores. Estes incidentes que se passaram recentemente dão um passo gigante no sentido oposto. É de facto um retrocesso grave mas é também a confirmação de que não é com medidas avulso e conjunturais que se vão resolver este tipo de problemas que estão intrinsecamente ligados a comportamentos que exorbitam o futebol mas que nele produzem resultados muito nefastos. Temos que ter uma visão de fundo, fazer uma análise global e adotar medidas estruturais. Não é possível deitar nova legislação em cima de cada incidente. Temos que ir ao fundo da questão e analisar as causas: porque é que o cidadão português, que é um cidadão ordeiro, transforma-se num energúmeno quando está a assistir a um jogo de futebol e tem esses comportamentos exagerados. Porque é que a tribo do futebol não pode fazer do jogo um fenómeno apetecível, credível em que as pessoas se sintam bem e onde possa haver uma sã convivência?

Onde é que está a génese do problema e que entidades têm que refletir sobre este fenómeno?

Acredito que tem que existir uma concertação de responsabilidades: por parte do Estado, a quem cabe zelar pelo interesse público e adotar normas que disciplinem a atuação de adeptos, de equipas e de dirigentes, dentro, fora e nas imediações dos estádios; mas implica também a uma forte sensibilização e educação por parte dos adeptos. O combate prepara-se com muita antecedência e leva muitas vezes a declarações encarniçadas e navalhadas verbais por parte dos dirigentes dos clubes. Essas declarações servem para animar as hostes, para criar muitas vezes álibis que mascarem derrotas, provoca necessariamente um impacto psicológico nos adeptos e espicaça-os. E, portanto, o comportamento dos dirigentes tem que ser a primeira linha de defesa de um desporto e de um negócio que se quer desenvolver. Eles têm muita responsabilidade na atuação das suas claques, nos grupos organizados de adeptos. Depois temos a própria organização das claques e a relação dos clubes com esses grupos, sendo que os clubes encaram-nas como uma espécie de guarda pretoriana para intimidar o adversário e criar muitas vezes o condicionamento psicológico da equipa adversária e das equipas de arbitragem. E isso é inaceitável em pleno século XXI. E há que dizer com frontalidade: não é aceitável que as claques sejam instrumentalizadas para satisfazer essas atitudes tribais e afetar negativamente um espetáculo em que quem tem o bilhete tem o direito de usufruir do jogo em estabilidade e em segurança. Para isso, é preciso tocar na ferida e atacar os problemas de frente.

A terceira edição do evento Sport Integrity Week (170 oradores) realizou-se entre 12 e 16 de setembro em Carcavelos, com o objetivo de recuperar a credibilidade, reconquistar a confiança dos adeptos e dos investidores. Que trabalho está para ser feito nesse capítulo?

Foi uma grande jornada de reflexão e debate com forte consenso em relação ao diagnóstico do estado atual do desporto não só nacional como também à escala mundial. Debatemos os desafios, as ameaças, os regulamentos mas também as oportunidades que temos pela frente. É preciso instigar uma profunda mudança cultural que coloque a integridade no pódio e no topo da agenda. E que se perceba que sem integridade, sem estabilidade, sem transparência, sem segurança não pode haver espetáculo, não pode haver desporto. Com a penumbra de que pode haver por trás de um resultado e de uma decisão. Isto só se consegue com uma visão holística, capaz de analisar todos os sectores e para esses sectores, encontrar a melhor solução. Falamos de questões relacionadas com a governança, corrupção, branqueamento de capitais, transparência e integridade financeira, regulação das apostas desportivas nos vários mercados. É preciso não esquecer questões que estão a emergir com grande propriedade como por exemplo a ligação ao mundo tecnológico e como é que este universo pode fazer para reforçar a integridade no desporto. São muito importantes também os temas ligados à sustentabilidade porque o desporto tem que assumir a sua quota-parte de responsabilidade em tornar o mundo melhor tendo em conta a profunda crise que vivemos em todos os domínios. Além disso, abordámos os temas da juventude, da igualdade de género, da diversidade e procurámos construir uma visão para a próxima década que assente nos valores, na integridade, na transparência, na prestação de contas aos adeptos, àqueles que investem no desporto e aos que querem estar no sector com dignidade e merecedores do respeito.

Que importância tem este tipo de iniciativas no sentido da mudança de mentalidades no futebol português?

Por isso é que dizia há pouco, e a propósito dos incidentes de que falávamos, criou-se um clima de ódio no futebol português para o qual tem contribuído a postura de alguns dirigentes, algo que nos coloca nos antípodas de onde queremos estar. Naturalmente que este congresso foi um ponto de partida e não de chegada mas foram criadas muitas dinâmicas no domínio da propriedade intelectual, combate à pirataria digital que ameaça a viabilidade económica e a sustentabilidade de todo o desporto e um conjunto de reformas que foram lançadas e que nos próximos meses vão ganhar vida com o apoio e a participação de todos.

Foi assinado um protocolo com a Liga Portugal no sentido de adotar “uma rede de segurança para adeptos, patrocinadores e aqueles que investem financeiramente na indústria”. Em que consiste este protocolo?

Foi um momento marcante desta semana porque a Liga portuguesa, cumprindo um compromisso que havia firmado com a SIGA em outubro do ano passado, concretizou e aderiu aos standards universais da SIGA. Isso significa uma assunção de liderança e de responsabilidade que faz toda a diferença nos dias que correm. Vamos começar esse trabalho já em janeiro do próximo ano nas áreas da governança, da integridade financeira onde há muito trabalho para fazer. Ando há 20 anos numa cruzada para que seja criada uma clearing house capaz de assegurar a transparência e integridade nas transações financeiras. Se conseguimos fazer isso, vamos encontrar resposta para o endividamento constante e letal a que os clubes portugueses têm estado expostos nas últimas três décadas. Queremos assim ganhar credibilidade e sustentabilidade e reganhar reputação para que a Liga portuguesa possa emergir na cena europeia internacional como uma Liga maior.

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Emanuel Macedo de Medeiros, responsável máximo da Sport Integrity Global Alliance (que dinamizou a semana passada o terceiro congresso desta coligação de integridade e boa governança no desporto, com mais de 100 parceiros internacionais), fala sobre este e outros temas nesta edição.
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