Crónica para ser lida a 5 de outubro

A crónica desta semana é para ser lida apenas no dia 5 de outubro. Peço aos leitores que respeitem essa indicação. Segue-se, portanto, a crónica: Bom dia! Espero que tenham gostado dos resultados das eleições de ontem. Certamente já perceberam que nada mudou e estamos cada vez mais entregues aos caprichos dessa coisa estranha e […]

A crónica desta semana é para ser lida apenas no dia 5 de outubro. Peço aos leitores que respeitem essa indicação. Segue-se, portanto, a crónica:

Bom dia! Espero que tenham gostado dos resultados das eleições de ontem. Certamente já perceberam que nada mudou e estamos cada vez mais entregues aos caprichos dessa coisa estranha e anónima que são os “mercados”. Agora que já votámos e o resultado foi o que se viu, só há uma solução de governo que passa por promover a “estabilidade”.

Não vou dizer que o resultado foi uma surpresa. Aquele ou outro caso mais particular não muda nada. É apenas bom para leituras de comentadores políticos, pois, na verdade, estava-se apenas à espera de cumprir um calendário eleitoral para baralhar e começar tudo de novo.
O problema é que as soluções vão ficando cada vez mais curtas e as posições políticas mais extremadas. Posso dizer que estava à espera que as eleições dessem em algo assim e, na realidade, só ficaria surpreendido se eu próprio tivesse sido eleito deputado. Mas, como viram, não fui. Quando televisões, jornais, rádios e redes sociais enchem a cabeça dos portugueses com sondagens diárias em pleno período de campanha eleitoral, estava-se mesmo a ver no que isto iria dar. Deu isto. E o “isto” diz-nos que não há alternativas há mais de 40 anos.

Mesmo que acreditem que Portugal vai ter um futuro melhor, desenganem-se. Vejam a Grécia, por exemplo. O Syriza prometeu muito, mas agora está bem alinhadinho com os que os “mercados” querem e Tsipras já joga com a necessária previsibilidade no tabuleiro do grupo dos senhores do mundo. O primeiro-ministro terá de seguir a mesma política de modo a que tudo o que foi feito até agora continue a ser cumprido. Isso explica-se facilmente, visto que as indicações já vêm de longe.
Quando digo “de longe”, estou até a apontar para anos recentes, nada de muito longínquo. Isto vem desde há quatro décadas, desde Novembro de 1975, a partir do 25° dia do referido mês, como no dia de Abril do ano anterior. Hoje, não há uma associação 25 de Novembro, mas há uma 25 de Abril. A esquerda, ao fazer a leitura que anda a fazer dos resultados de ontem, ainda não parece ter percebido o que se passa: não são os portugueses que mandam em Portugal. São os “mercados”. No dia em que perceberem isso, no dia em que souberem ser sensatos, equilibrados e liberais a sério, os resultados eleitorais vão ser diferentes do que aqueles que tivemos ontem. Para já, eu sei que não vou estar representado no Parlamento.

Nenhum dos que foram ontem eleitos é capaz de me representar. E como eu há muitos mais que sentem isso. Pena é que a Democracia não exista em Portugal. Muitos votos foram deitados literalmente para o lixo. Com um sistema eleitoral mais justo e transparente, haveria uma outra composição na Assembleia da República. Mas, perdeu-se mais uma oportunidade e agora temos isto. Espero, portanto, que gostem do resultado. Eu gostei, pois sei que este resultado abre boas perspectivas para o futuro. Acredito que no futuro as pessoas vão perceber que é preciso apostar a sério na mudança. Acredito que mais vozes se irão juntar à minha, pois são pessoas genuinamente preocupadas com o futuro que estamos a construir para os nossos filhos. Quero acreditar que muitos que votaram ontem vão perceber durante os próximos dias que não podem continuar a ser enganados pelas manipulações das sondagens. Tenho esperança de que não vão continuar a confiar nos jornalistas que nos querem impingir os mesmos de sempre. Vão ainda perceber que esses partidos emergentes têm prazos limitados, pois faltam-lhe História. E os que não foram votar, talvez acordem e vejam que ontem tiveram uma excelente oportunidade para mudar Portugal, as vidas de todos e que, por se terem abstido, contribuíram também para este lindo resultado que se viu.

Por mim, fica uma certeza: estou já a preparar as próximas eleições e algo me diz que não vou ter de esperar mais quatro anos. Até já. Espero que este intervalo seja útil para, finalmente, começarmos a fazer melhor por todos.
Frederico Duarte Carvalho

Jornalista e escritor

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