Cuidado com o otimismo

Não olhando nem para o passado nem para o futuro previsível, esquece-se que o crescimento económico deve ser analisado em horizontes mais longos e numa ótica mais estrutural.

Um estudo da Universidade de Aveiro conclui que o rácio otimismo/pessimismo prediz a criatividade no trabalho e é fundamental que saibam adotá-lo na medida certa para que não vivam uma situação irrealista.

Vem isto a propósito das recentes previsões do PIB de Bruxelas que reviu em alta o anterior crescimento de 5,8% para este ano para 6,5%, colocando novamente o País com o crescimento em 2022 mais expressivo em toda a Europa (passou de 4,4% na zona euro para 2,6% após o eclodir da guerra) e mais do que o dobro da média europeia. A Comissão Europeia justifica as novas previsões – que superam, também, os 4,9% previstos pelo Governo – com o contributo da reabertura do turismo externo para o crescimento do PIB.

O otimismo com que foi recebida esta projeção, nas palavras da AEP, revela uma miopia de análise. Tem razão. Não olhando nem para o passado nem para o futuro previsível, esquece-se que o crescimento económico deve ser analisado em horizontes mais longos e numa ótica mais estrutural. Se não, vejamos. Em 2023, mesmo com efeitos do PRR, o crescimento de Portugal baixa para 1,9%, quando em maio Bruxelas esperava 2,7%. O aviso à navegação está feito. O comissário europeu da Economia, Paolo Gentiloni, já sinalizou que “é possível que venha aí uma tempestade”. Os ponteiros da bússola europeia apontam que vamos passar de uma fase de crescimento lento para uma fase de abrandamento numa conjuntura de inflação a níveis históricos e aumento das taxas de juro que afetará negativamente as famílias e as empresa e que poderá arrastar as economias para a estagflação.

Como a produtividade e a competitividade da economia nacional a continuar na 3ª divisão e sem uma inversão de políticas, Portugal ficará cada vez mais na cauda da Europa. Não é difícil perceber que os problemas estruturais não desapareceram de um dia para o outro e continuarão a condicionar a geração de riqueza e o nível de vida relativo nos próximos anos. A bazuca europeia é uma oportunidade para realizar as reformas estruturais – expressão, que arrepia ao primeiro-ministro, segundo o próprio já admitiu – de que o país precisa em áreas como administração pública, sistema fiscal e justiça. Sem medo de impopularidade para preparar o futuro do país.

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