Culpa e vergonha

A revista Time escolheu como “Pessoa do Ano” os guardiões, os jornalistas que se posicionam ao longo das linhas vermelhas entre a democracia e a tirania. Símbolos de uma coragem feroz face à adversidade.

Na língua alemã, o termo vergangenheitsbewältigung significa algo como “reconciliar-se com o passado”, e é usado para descrever o processo que levou a Alemanha Ocidental a lidar com o seu passado nazi e os horrores do Holocausto. Na esteira deste período de reflexão sobre a sua culpabilidade e vergonha, o país viu-se a ferro e fogo na década de 70, em virtude da atividade terrorista da Fação do Exército Vermelho, responsável por uma série de atentados e sequestros que conduziriam a RFA de então a um pico de paranóia e histeria.

O escritor alemão e Nobel da Literatura Heinrich Boll explorou numa das suas obras este período de tensão política acumulada, que teria como resultado a publicação de “A Honra Perdida de Katharina Blum”, em 1974. O romance explora as ligações da protagonista com um homem perseguido, tornando-se assim o alvo dos media que não irão olhar a meios para atingir fins.

As práticas expostas por alguns dos jornais não são, na verdade, muito diferentes do assassinato de carácter que a imprensa sensacionalista pratica hoje em dia. O abuso de poder e excesso dos media levam Blum a cometer atos desesperados de violência, e não foi de menosprezar o impacto da publicação do livro na sociedade alemã em 74, que levou muitos a questionar a liberdade de imprensa.

Hoje encontramos ecos desse jornalismo em todo o lado. Nenhum país e cidadão escapam às suas malhas. Mesmo em Portugal são muitos os exemplos conhecidos, vindos de publicações como o Correio da Manhã. O objetivo é fazer sentir a culpa e a vergonha enquanto crucificam na praça pública, ao mesmo tempo que se instiga o público a julgamentos de ordem moral, não importando se os factos foram subvertidos para melhor encaixar a narrativa preferida.

No entanto, se há coisa que caracteriza o tempo atual são os extremos em que vivemos. É verdade que não vamos entrar em 2019 inteiramente dominados pelos tablóides, mas também é verdade que eles contam com audiências significativas. Temos vindo a testemunhar o pior, mas em anos recentes também temos testemunhado o melhor e uma coragem feroz face à adversidade.

A revista Time escolheu como “Pessoa do Ano” os guardiões, os jornalistas que se posicionam ao longo das linhas vermelhas entre a democracia e a tirania, os jornalistas que perderam as suas vidas, ou viram as suas vidas destruídas, por investigarem e por fazerem as pessoas pensar para além de bolhas de ilusão criadas por déspotas.

O saudita Jamal Khashoggi foi brutalmente assassinado pelas autoridades do seu próprio país da forma mais hedionda possível por se ter atrevido a questionar as políticas da elite governante. E, por isso, transforma-se num símbolo que nenhum poder autoritário pode apagar. A escrita de Khashoggi torna-se maior em morte do que em vida.

Talvez chegue o tempo em que iremos atravessar coletivamente o nosso próprio  vergangenheitsbewältigung e aprender a lidar com a culpa de termos deixado o mundo chegar ao estado atual. Até lá, resta-nos procurar o equilíbrio num mundo desequilibrado. E confiar no papel fundamental da imprensa certa para nos mantermos alerta.

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