Cultura e turismo, juntos, claro

É com um sentimento de grande conforto e crescente respeito político que ouço frequentemente António Costa referir-se à cultura como prioritária na sua estratégia de desenvolvimento para Portugal. É a indicação de uma visão madura, cosmopolita, informada – numa palavra: culta -, que revela a experiência de sucesso já posta em prática na cidade de […]

É com um sentimento de grande conforto e crescente respeito político que ouço frequentemente António Costa referir-se à cultura como prioritária na sua estratégia de desenvolvimento para Portugal. É a indicação de uma visão madura, cosmopolita, informada – numa palavra: culta -, que revela a experiência de sucesso já posta em prática na cidade de Lisboa.
As áreas do conhecimento – a educação, ciência e a cultura são os setores que verdadeiramente nos poderão garantir sustentabilidade qualificada no futuro; são os únicos instrumentos que nos poderão dar competitividade, quer no quadro europeu, quer face aos países da Ásia ou América do Sul que ameaçam diariamente conquistar economicamente a Europa, engolindo-nos de um trago, entre “Golden Visas”, Opas, privatizações e aquisição de dívida soberana. O conhecimento é na realidade a única matéria-prima que está verdadeiramente ao nosso alcance, com o qual poderemos transformar definitivamente o nosso setor produtivo.
António Costa percebeu isto e não teve ambiguidades: já fez saber que irá restituir à cultura os mecanismos políticos que lhe permitam intervir em toda a sua plenitude no quadro da governação do país, apontando mais este erro estúpido como outro dos vários pecados originais da formação inicial do XIX Governo.
Passados mais de 20 anos desde o Tratado de Maastricht em que a Comunidade Europeia reconhece, preto no branco, a importância da Cultura como alicerce sobre o qual se constrói uma Europa moderna e inclusiva, e depois de em Portugal se terem lançado as principais estruturas indispensáveis às políticas culturais, podem-se e devem-se fazer balanços, sob diversos ângulos, mas desde logo é incontornável concluir que tem sido graças aos artistas, aos criadores, aos escritores, ao património – material e imaterial, em suma, tem sido graças à ação da cultura que Portugal tem conseguido internacionalmente os seus maiores triunfos.
No sentido inverso, o turismo tem tido um papel cada vez mais relevante no nosso país, seja por razões conjunturais ou seja por políticas bem-sucedidas. Em todo o caso, não será certamente alheio a este sucesso o longo percurso histórico de quase 900 anos que foi desenvolvendo laços e teias nas relações entre povos.
A ligação entre a cultura e o turismo parece ser óbvia, mas a realidade é que não existe nem administrativamente, nem politicamente, senão de forma indireta. E a RTP, em particular a RTP Internacional? Haverá melhor forma de “exportar” cultura e a língua portuguesa e de preservá-las na diáspora do que através deste meio? Mas na verdade também não existe uma ligação nem indireta com a tutela política da cultura.
É tempo de se criar um bloco de intervenção cultural firme, de largo espetro, com forte componente económica, diretamente ligado ao turismo e assumirmos o enorme impacto económico que ambos gerem em conjunto como uma das mais importantes fontes de receitas do país – o que não invalida, de forma alguma, a componente de incubadora criativa que à cultura também compete manter.
Junte-se-lhe a missão da RTP e o seu papel de divulgação da portugalidade no mundo lusófono e percebemos que há campos comuns na área cultural que podem e devem ser encarados em conjunto, procurando-se assim interligar áreas fortemente complementares para melhor as projetar, fazendo-as ganhar assim mais peso político e económico. Uma coisa é certa: no campo da cultura, temos que ir mais longe do que temos ido. Muito mais.

Gabriela Canavilhas
Pianista, deputada e ex-ministra da Cultura

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