Customizar a diversidade e a mudança

É urgente a integração de técnicas inovadoras na indústria da construção que possam permitir o aumento da produtividade e uma maior democratização do ambiente construído.

Num Portugal em transformação, é necessário analisar com atenção as estruturas sociais e os modos de vida da população urbana. As tendências demográficas registadas em estatísticas, nas últimas décadas, revelam um processo de mudança progressiva e persistente.

Nos censos é visível a alteração da dimensão média dos agregados familiares, que reduziu significativamente em 60 anos, passando de 3,8 pessoas por família, em 1960, para 2,6 pessoas, em 2011 e 2,5 pessoas em 2021. Com famílias de menor dimensão, o aumento das famílias unipessoais e famílias monoparentais (separados, divorciados e viúvos), os padrões de vida doméstica também se alteram.

Neste contexto de diversidade exige-se espaço para a experimentação de processos e procedimentos no desenvolvimento de novos programas habitacionais em direção a um imaginário de novas formas de habitar.

A diversidade, como fator de competitividade e inovação, também exige à indústria nacional e aos arquitetos a oferta de soluções que incorporem estratégias de customização em massa. Uma oportunidade para repensar os modelos atuais de unidades habitacionais padronizadas que deixaram de atender às novas exigências heterogéneas do habitar o espaço doméstico privado.

Para viabilizar esta nova realidade, é necessária a utilização de ferramentas que permitam aos futuros habitantes configurar o seu habitat, a partir de opções disponibilizadas pela indústria da construção.

A quarta revolução industrial acelerou processos noutros setores industriais, contudo na construção civil as ferramentas para a customização em massa da habitação ainda estão longe da realidade. É urgente a integração de técnicas inovadoras na indústria da construção que possam  permitir o aumento da produtividade e uma maior democratização do ambiente construído, tendo um impacto direto nas questões económicas, ambientais e sociais. Neste sentido, a participação dos habitantes através de processos de cocriação é central para alcançar esta democratização.

O assunto não é novo. Em 1975, o arquiteto Yona Friedman propôs o Flatwriter como interface para garantir a autonomia do cliente na customização da habitação.

No presente, a  utilização de tecnologias digitais como a Modelação da Informação de Construção (BIM), provam ser o garante de estratégias centradas no cliente de forma eficiente. A capacidade do BIM de proporcionar um ambiente de colaboração para todos os atores envolvidos no desenho de soluções de habitação diversa, uma monitorização contínua e acumulação de competências, ou a possibilidade de oferecer validação automática do desenho, pode permitir um processo de personalização verdadeiramente eficaz.

Na Europa, o BOKLOK é pioneiro na oferta de soluções habitacionais customizáveis em massa. Em Portugal, também já existe algum trabalho neste sentido. O BLUEFAB do grupo CASAIS representa a inovação nacional na promoção de uma industrialização inclusiva e sustentável, através da tecnologia BIM e processos construtivos em fábrica.

Para que a customização da diversidade e da mudança seja uma realidade nacional, na indústria da Arquitetura, Engenharia e Construção, é necessário apostar nas transformações culturais e de gestão, bem como nas tecnológicas diretamente aplicadas ao processo de construção mais próximas das novas exigências dos padrões de vida doméstica contemporâneos.

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