De paraíso russo a deserto. Região italiana assume prejuízos com falta de turistas russos

Desde o início da invasão russa à Ucrânia, e das consequentes sanções e limitações aplicadas aos cidadãos da Rússia, que o turismo nesta região italiana tem diminuído, de tal maneira, que os resorts e restantes empreendimentos turísticos já falam de um êxodo que poderá condicionar a viabilidade dos negócios.

Scalea, uma cidade italiana com menos de onze mil habitantes, tem 30 agências imobiliárias, a maioria dedicadas ao mercado russo. Restaurantes, bares e lojas passaram a depender dos hóspedes russos, que tendem a gastar mais do que os italianos, por estes prolongarem a temporada de férias para lá dos meses quentes de verão, segundo o “The Guardian”.

Desde o início da invasão russa à Ucrânia, e das consequentes sanções e limitações aplicadas aos cidadãos da Rússia, que o turismo nesta região italiana tem diminuído e os resorts e restantes empreendimentos turísticos já falam de um êxodo que poderá condicionar a viabilidade dos negócios.

Nicola Rotondaro, proprietário da imobiliária Rotondaro Costruzioni, afirma mesmo que “já estamos no zero. Os russos não vêm mais, foram expulsos”.

A presença de consumidores e turistas russos em Scalea já havia praticamente evaporado como resultado da pandemia de Covid-19 e do estatuto não autorizado da vacina russa Sputnik na União Europeia (UE). Agora, com a guerra no leste europeu e as subsequentes sanções económicas, especialmente a proibição de voos, significa que é improvável que os russos regressem num futuro próximo.

Os serviços listados no outdoor da Rotondaro Costruzioni, uma imobiliária e construtora, estão escritos em italiano e russo, assim como os detalhes dos imóveis anunciados à venda na montra.

Outro dos exemplos, na mesma região, é o restaurante/bar La Playa, cujos menus surgem em russo e, inclusive, incluem staff que fala a linúa de Moscovo. Salvatare, um dos empregados de mesa, conta ao “The Guardian” que, em situações normais, “há muitos russos aqui. Agora nem sequer o primeiro”.

“Eles gastam muito. Se a guerra acabar em breve, talvez eles ainda regressem a tempo para o verão”, acrescentou Salvatore.

A construção de imóveis cresceu em Scalea e noutras cidades ao longo da costa da Calábria, na década de 1980, impulsionada pela procura por casas de férias de compradores italianos, principalmente oriundos de Nápoles. “Podíamos contar o número de estrangeiros pelos dedos de uma mão”, disse Tony Hackett, um agente imobiliário britânico-italiano. “Mas desde então, as pessoas que compraram durante esse período pararam de vir, e muitas propriedades foram recicladas”.

Em 2010, o interesse dos russos começou a ganhar ritmo, principalmente entre professores e médicos, ao comprarem casa “humildes” que ainda hoje podem ser adquiridas por apenas 14 mil euros. O proprietário russo mais famoso de Scalea foi Boris Klyuyev, um ator que morreu em 2020.

Alguns dos proprietários estabeleceram-se na cidade, incluindo Maria Stepura, presidente da associação Calábria-Rússia, que ajuda a promover a Calábria na Rússia e auxilia os compradores de imóveis com a burocracia italiana. Stepura comprou uma casa perto da praia em 2010. “O valor do rublo na altura significava que custava muito menos do que comprar um terreno perto de Moscovo”, revela Stepura.

“A vida aqui é simples: uma bela praia, custo de vida barato, podemos comer fora por preços baratos e tomar o pequeno-almoço no bar, o que é sempre um prazer, e os locais também são acolhedores”, sublinha Stepura.

A região foi descrita pela imprensa local como “uma pequena Moscovo na Calábria”, mas Giacomo Perrotta, autarca desde agosto de 2020, discorda: “Sim, houve um investimento significativo da Rússia – obviamente Scalea difere de Moscovo para quem gosta de sol”.

O boom imobiliário em várias áreas da Calábria foi parcialmente alimentado pela construção ilegal de grupos mafiosos, com uma repressão desde 2013 levando à apreensão de centenas de resorts turísticos e casas de férias. Alguns investidores estrangeiros envolveram-se involuntariamente nos crimes imobiliários da máfia.

Scalea não saiu ilesa, e agora a administração local espera colocar no mercado as propriedades confiscadas à máfia. “Estamos a participar numa ação de financiamento, e este é o primeiro passo – ter os fundos para limpá-los”, disse Perrotta.

Resta saber se os russos voltarão a comprar as ações adicionais da propriedade, mas Perrotta está confiante de que Scalea terá um verão movimentado. “Vamos esperar que os russos voltem… mas após dois anos de pandemia, prevemos um boom na presença de turistas.

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