“Defendemos auditorias em algumas Misericórdias”

Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias, em entrevista exclusiva ao OJE


Notice: Undefined offset: 1 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Notice: Undefined offset: 2 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Notice: Undefined offset: 1 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Notice: Undefined offset: 2 in /var/www/vhosts/jornaleconomico.pt/httpdocs/wp-includes/media.php on line 1031

Há Misericórdias bem geridas, outras mal geridas e outras ainda muito mal geridas. Manuel de Lemos, presidente da União das Misericórdias, diz que não tem a tutela sobre o conjunto e muito menos o papel de regulador e, por isso, tem insistido na ajuda às equipas de gestão que estão em dificuldades com auditorias que possam modificar práticas e comportamentos.

Os pobres continuam a aumentar. O que podem o Estado e as instituições do terceiro setor fazer?
Continuam as grandes dificuldades e, em alguns bairros “guetizados”, vão-me chegando notícias preocupantes. Contamos uma resposta global via Misericórdias e IPSS e, no país rural, pode dizer-se que houve uma redução da procura; nos meios urbanos, a situação é preocupante. E não se resolve com meras cantinas, porque o problema da pobreza é estrutural. O país precisa de uma reorganização e precisamos de um país diferente do que temos porque vai continuar a haver grandes setores da sociedade que precisam de reestruturar.

Há 50 anos, quando se procurava melhores condições de vida, a emigração era a opção e, mais recentemente, voltou-se para a nova emigração. Continua a ser a solução?
Tivemos recentemente uma emigração diferente, a não ser para Angola. Para a Europa, houve uma emigração qualificada. É uma emigração que, no entanto, não posso ligar diretamente a esta crise. É algo que já estava a acontecer no tal país que precisa de ser reestruturado.

Esta pobreza estrutural pode estar ligada ao novo conceito de família ou à quebra de antigos valores de família?
A sociedade portuguesa mudou muito rapidamente, transformou-se, houve um conjunto de valores que não acompanharam e não nos reorganizámos nem a montante, nem a jusante. Diz-se que a família já estava desestruturada em muitos países europeus. Isso é verdade mas esses mesmos países tomaram outras iniciativas para proteger as pessoas e nós não o fizemos porque nunca tivemos dinheiro para tal.

E, em simultâneo, estamos com um problema demográfico irresolúvel, independentemente de ter surgido uma notícia recente relativa a um curto período em que se registaram nascimentos acima da média…
Isso não é sequer uma tendência. Temos a pirâmide etária invertida, temos uma situação social muito complexa, e o Estado faz um pouco de conta e as pessoas aguentam, e as Misericórdias e as IPSS acolhem mas a situação está a deteriorar-se há largos meses. Precisamos de novas políticas sociais mas, ao contrário do que alguns querem, têm de ser do Estado, mas não pode ser o Estado a executá-las. O custo disso para estruturas públicas é brutal e terão de ser outras organizações da sociedade civil que, em estreita cooperação com o Estado, têm de gerir. Isto porque somos mais flexíveis, mais eficazes, aproveitamos melhor o dinheiro, racionalizamos mais e o Estado, pela sua própria natureza, está muito comprimido em regras rígidas e que facilmente resvalam para desconfianças sobre honorabilidade dos agentes, o ataque à transparência ou a afetação ao défice.

Houve um crescendo da importância das Misericórdias, das IPSS e de todas organizações sociais durante o anterior governo. Há resultados palpáveis?
Não falaria do anterior Governo, mas de anteriores Governos e dou–lhe o exemplo da Rede de Cuidados Continuados que foi lançada pelo último Governo socialistas. Falo ainda dos programas PARES para as creches, jardins de infância e para os lares. O anterior governo PSD/CDS prosseguiu e apoiou-se em nós, não tinha outra alternativa. Ouve-se agora dizer, por algumas forças, que o novo Governo socialista vai fazer o contrário, dir–lhe-ei que olho para isso como excitações. Depois de chegarem à dura realidade, não haverá maneira de fazer melhor. Hoje, o Estado comparticipa num lar de idosos com cerca de 350 euros mas, se o lar for público, o custo vai aos dois mil euros. E sobre isso ainda se discute a qualidade. Há aqui outra vez um problema estrutural.

Têm sido os Governos socialistas a lançar as grandes medidas de política social?
Nos últimos anos, temos assistido à grande preocupação de todos os Governos e, do nosso lado, o que fazemos é interagir com os Governos e negociar com o Estado, com quem fazemos os acordos. Estes são perenes e sobrepõem-se aos Governos que vão surgindo. Ora quando ouvimos o novo ministro das Finanças a dizer que vai manter o défice abaixo dos 3% é “bater na realidade” e, neste cenário, o que acontece é que os organismos públicos vêm pedir para cooperar connosco e nós estamos cá para o fazer. A nossa relação é com as pessoas.

Que capacidade de intervenção tem a União das Misericórdias perante Misericórdias que funcionam mal? A União não tem um papel de regulador?
Não tem e essa foi uma matéria muito discutida que tem muito que ver com autonomia de cada uma das instituições. Vimos advogando, com muita insistência, a necessidade se fazem auditorias em algumas Misericórdias. Tentámos colocar o tema nos estatutos – não ficou como queríamos, mas ficou a pedido das instituições. Realço que temos tido algumas solicitações para avançar com essas auditorias e a minha grande alegria é o facto de a nossa intervenção ter sido muito positiva e dinâmica. Já fizemos algum trabalho e o resultado foi uma mudança, quer em termos económicos da gestão, quer na satisfação das pessoas que lá estão e em termos de ambiente.

Quem compõe as equipas de auditoria?
É uma equipa interna e algumas externas que trabalham conjuntamente. Criámos, aliás, algumas equipas que olham para as Misericórdias enquanto empresas, um pouco à semelhança daquilo que foi feito pelas associações empresariais junto das PME. Estamos a falar de pessoas e não de bens. Para a rentabilidade de um lar, não é indiferente a estrutura física do edifício, o número de pessoas acamadas, se tem escadas ou não, o que significa que não podemos olhar para o tema como para uma folha de excel.

Por Vítor Norinha/OJE

Recomendadas

Portugal com maior subida de carga fiscal na OCDE. “Não é uma liderança que nos orgulha”, afirma Marques Mendes

O comentador apontou o facto de que em 2010, a carga fiscal nacional correspondia a 30,4% do PIB e onze anos depois subiu para 35,8%. “Está claramente acima da média da OCDE que está neste momento nos 34,1%”, referiu.

Bruxelas com resposta adequada às “distorções” da lei da inflação nos EUA

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu este domingo uma resposta “adequada e bem calibrada” para mitigar as “distorções” da lei norte-americana para a redução da inflação.

Conferência “Poupar e Investir para um Futuro Melhor” a decorrer em Lisboa, com o apoio do Jornal Económico

A conferência é organizada pela Optimize Investment Partners, sociedade gestora portuguesa que disponibiliza uma gama de soluções de investimento para diversos perfis de risco e objetivos. Moderada por Nuno Vinha, subdiretor do Jornal Económico, consiste numa palestra de 30 minutos de cada um dos quatro oradores, um coffee break e uma mesa redonda com espaço para perguntas e respostas e interação com a plateia.