Auditoria ao Novo Banco revela perdas de mais de quatro mil milhões

A Deloitte entregou ao Governo a auditoria aos actos de gestão dos últimos 18 anos do BES/Novo Banco, esta terça-feira, dia 1 de setembro, já depois do prazo estipulado. Segundo as Finanças, a auditoria analisa 283 operações que geraram perdas de quatro mil milhões de euros. A auditoria será remetida pelo Governo à Procuradoria-Geral da República.

A Deloitte entregou na madrugada desta terça-feira, dia 1 de setembro, a auditoria que esteve a realizar aos atos de gestão no BES e Novo Banco, abrangendo um período de 18 anos, entre 2000 e 2018, de acordo com um comunicado divulgado pelo Ministério das Finanças.

A análise, que começou em outubro de 2019, foi entregue ao Ministério das Finanças já após o fim do prazo estabelecido, que terminou dia 31 de agosto.

O Governo não será a única entidade a ter acesso à auditoria uma vez que as Finanças esclarecem que o documento será entregue também ao Banco Central Europeu, ao Banco de Portugal, ao Fundo de Resolução, à Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários.

Ao longo de 13 pontos, o Ministério das Finanças diz ainda que a auditoria “incide sobre um período muito alargado da atividade do Banco Espírito Santo até 2014”, período relativamente ao qual “estão em curso processos criminais”. Por esse motivo, e também devido “à necessidade de salvaguarda dos interesses financeiros do Estado”, a auditoria será remetida pelo Governo à Procuradoria-Geral da República.

As Finanças referem ainda que a auditoria já foi remetida para a Assembleia da República.

O documento vai evidenciar que as perdas do Novo Banco se deveram “fundamentalmente” à exposição a ativos “que tiveram origem no período de atividade do Banco Espírito Santo” — tal como o Jornal Económico noticiou na semana passada — e que foram transferidos para o balanço do Novo Banco após a resolução do BES.

A amostra total da auditoria da Deloitte ao Novo Banco abrange 283 ativos, entre créditos, imóveis, títulos e operações com subsidiárias que tenham gerado perdas cobertas pelo Mecanismo de Capital Contingente (CCA). A amostra terá abrangido 100 devedores e outros que o Fundo de Resolução tenha decidido adicionar ao escrutínio da Deloitte.

Sobre o período de análise ao Novo Banco, entre 4 de agosto de 2014 e 31 de dezembro de 2018, a Deloitte concluiu que esta instituição de crédito incorreu em perdas líquidas de 4.042 milhões de euros em 283 operações.

Foram analisados três blocos de atos de gestão do Novo Banco praticados naquele período. Foram auditadas 201 operações de crédito que geraram perdas de 2.320 milhões de euros, 26 operações com subsidiárias e associadas, que causaram perdas de 488 milhões de euros e ainda 56 operações com outros ativos, que geraram perdas no valor de 1.234 milhões de euros.

Trata-se de um relatório “extenso” e que “descreve um conjunto de insuficiências e deficiências graves de controlo interno no período de atividade até 2014 do Banco Espírito Santo no processo de concessão e acompanhamento do crédito, bem como relativamente ao investimento noutros ativos financeiros e imobiliários”, frisam as Finanças.

Em relação ao Novo Banco, o relatório descreve “os progressos realizados nestas matérias no período de atividade” da instituição de crédito.

O mandato que foi atribuído à Deloitte definiu como âmbito da auditoria a caracterização das perdas e outras variações patrimoniais entre 4 de agosto de 2014 (um dia depois da resolução do BES) e 31 de dezembro de 2018 e que provocaram chamadas de capital ao Fundo de Resolução no âmbito do CCA.

A auditoria não se limita ao período das perdas, analisa também as operações desde a sua origem e dessa forma abrange o período de 2000 e até 2018, tal como já foi noticiado.

A análise abrangeu a concessão de créditos, de garantias, reestruturações, dações em cumprimento ou execução de garantias, venda de carteiras de crédito ou transferência para fundos de reestruturação; decisões de investimento, expansão ou desinvestimento realizadas em Portugal ou no estrangeiro; e decisões de aquisição e venda de ativos.

(notícia atualizada às 01h54 com mais informação sobre o conteúdo do comunicado do Ministério das Finanças)

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