Democracia 2020

Talvez tenha chegado a hora de sermos audazes e descobrimos novas fórmulas que permitam que se cumpra Portugal. Para que os portugueses possam acreditar, temos todos que fazer diferente.

Durante muitos anos e em diversos quadrantes da sociedade portuguesa, a democracia tem sido vista como uma conquista e um avanço civilizacional pela qual muitos portugueses batalharam e pugnaram.

Em jeito de balanço sobre este ano que agora termina, e sem de forma alguma querer colocar em causa este legado, atrevo-me a perguntar se a maioria das franjas da nossa atual sociedade sente esta conquista como uma mais-valia ou uma ferramenta que os ajuda a viver verdadeiramente melhor no seu dia a dia?

Perante os mais diversos indicadores sociais, políticos, económicos, religiosos e éticos não faltam as vozes mudas de esperança a clamar por uma reforma do estado das coisas que traga alento a uma sociedade, que continua a empurrar para as margens homens e mulheres que sentem na pele os resultados discriminatórios duma política que traz a responsabilidade de manter um país inteiro para cima dos ombros duma classe média cada vez menor e mais sobrecarregada por impostos que deveriam ser aliviados pelos cortes na gordura do Estado, mas que, infelizmente, pela inoperância ou incapacidade de quem nos governa, vê esta mudança de paradigma sistematicamente adiada.

Acresce a falta de transparência e credibilidade política, com as constantes e graves falhas de Estado, a falta de responsabilização dos intervenientes públicos, económicos e políticos, um Portugal que crescesse do ponto de vista económico, com menos carga fiscal sobre os cidadãos, com menos recurso ao endividamento público e menos manipulação ideológica da saúde, educação e justiça, setores vitais do Estado.

Perante este cenário, e o facto de se sentir a necessidade de se construir uma democracia mais verdadeira, honesta e que corresponda às expectativas de quem está preenchido de promessas, são cada vez mais as vozes que perguntam se não chegou a hora de fazermos um parêntesis real a esta democracia enferma (sem esquecer a necessidade democrática) e durante uma fase tentarmos um novo regime político e social mais exigente?

Não terá chegado a hora de tentarmos fazer diferente para não cairmos na loucura de esperarmos resultados diferentes continuando a fazer tudo igual? É que a verdadeira crise do país é do seu sistema político, e alterar o que é necessário é passar das palavras às soluções.

Talvez tenha chegado a hora de sermos audazes e descobrimos novas fórmulas que permitam que se cumpra Portugal. Para que os portugueses possam acreditar mais nas instituições, na justiça, na equidade, na proporcionalidade e no equilíbrio do Estado Social, temos todos que fazer diferente. E pugnar por alterar na nossa Democracia o nosso sistema eleitoral e sistema político, para que possamos construir para a próxima década, que agora se inicia, um país melhor, com uma economia mais robusta e uma sociedade que combata o fosso da desigualdade e da injustiça social.

Quem não gostaria de ter no seu sapatinho uma democracia mais sã e duradoura, e um Portugal que gerasse riqueza e desenvolvimento, que se refletisse em qualidade de vida e poder de compra dos cidadãos, financiados na capacidade de com menos fazer mais e não no expediente insustentável e esgotado de continuar a financiar a nossa democracia com o único “petróleo” que temos conseguido explorar: o poço da máquina fiscal. Vale a pena pensar no assunto e escolher a mudança. Bom 2020!

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