Democracia e ditadura numa relação com o bem-estar

A saúde mental constrói-se todos os dias, por cada um de nós, através das nossas ações, mas também através da intencionalidade de a trabalharmos em todas políticas públicas.

Quando falamos em saúde mental é como se activássemos no nosso cérebro uma imagem alusiva à doença mental. Invariavelmente mais do que falar sobre saúde falamos sobre doença. A Organização Mundial de Saúde definiu, há muito, saúde como mais do que ausência de doença. Como um bem-estar físico, mental e social.

Apesar disso, nem a parte mental tem sido muito considerada, consciente e visível para grande maioria de nós, até há bem pouco tempo, nem o bem-estar tem sido central, e por consequência, nem uma visão mais preventiva e de promoção da saúde tem tido a atenção e acções que necessitamos.

É assim um pouco por todo o lado e também em Portugal. Todavia, mesmo antes da pandemia, alguns sinais de mudança já existiam, como uma aposta no desenvolvimento de competências sócio-emocionais nas escolas a começar a fazer caminho, acompanhada do crescimento de psicólogos para o concretizar ou uma valorização crescente dessas mesmas competências pelo mercado de trabalho.

Com a pandemia, a dimensão da visibilidade dos temas relacionados com a saúde mental e a psicologia cresceu exponencialmente. Mas nem tudo aconteceu agora, nem pouco mais ou menos. Se esta visibilidade se traduziu mesmo em mais recursos humanos para as escolas, organizações e saúde, por exemplo, também é verdade que em alguns casos “apenas” permitiu “descobrir” projectos estruturais a decorrer há já algum tempo.

É o caso do WISE Center da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico. WISE é o acrónimo para Well-being Inclusiveness, Sustainability and Equal Opportunity e tem como um dos seus projectos em desenvolvimento, o The well-being and population mental health project. Este projecto tem uma visão integrada da saúde mental e baseada no bem-estar para a sua promoção e numa infusão transversal a todas as políticas públicas.

A saúde mental é vista num contínuo de saúde e não apenas numa visão dicotómica de diagnóstico de doença ou não. Uma visão mais compreensiva e próxima da realidade que observamos e sem a simplificação, por vezes necessária, mas tantas vezes excessiva, das categorizações e das caixinhas do diagnóstico. O projecto pretende contribuir para melhor acessibilidade e qualidade de dados sobre a saúde mental a nível mundial e quais são as interligações entre a saúde mental e os contextos económicos, sociais e ambientais das pessoas.

A ideia é que com melhores dados sobre prevenção e promoção e mais informação sobre os factores de bem-estar e resiliência, se possam fazer mais efectivas recomendações para melhorar as políticas públicas. Neste modelo do WISE Center preconizam-se várias dimensões para o nosso bem-estar no presente, desde a nossa situação financeira, à qualidade do nosso trabalho, habitação, ambiente, saúde, segurança ou relações sociais, até às competências, entre outras.

Num momento que passámos a viver mais em democracia do que na ditadura do Estado Novo, relembremos as consequências entranhadas ainda na nossa sociedade de décadas de desinformação permanente, perseguição ao pensamento crítico, de um moralismo de estado e ausência de liberdade em geral (nomeadamente de livre associação)… na falta de participação cívica, também ela uma dimensão de risco ou protectora para a saúde mental, no modelo da OCDE.

A saúde mental constrói-se todos os dias, por cada um de nós, através das nossas ações, mas também através da intencionalidade de a trabalharmos em todas políticas públicas. A relação entre a saúde mental e a participação cívica é circular. Se temos muito ainda a fazer para recuperar o tempo perdido e os efeitos nefastos do nosso passado, temos ao mesmo tempo que prevenir em direcção ao futuro atendendo aos impactos que os problemas na saúde mental e no bem-estar podem provocar na própria participação cívica e na qualidade da democracia. E não, não estou a falar da doença mental apenas.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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