Descodificar o impacte do Metaverso

O Metaverso é um mundo virtual que tenta replicar a realidade através de dispositivos digitais. Será a evolução natural da internet, podendo atingir um valor mínimo de mil milhões de utilizadores até 2030 a nível global.

“Eu sei que este bife não existe. Eu sei que quando o coloco na minha boca, a Matrix diz ao meu cérebro que este é suculento e delicioso. Depois de nove anos, sabem do que me apercebo? A Ignorância é uma benção.” Cyper , “The Matrix”, 1999

Metaverso é uma das mais recentes novas fronteiras de inovação digital, e que tem vindo cada vez mais a ganhar relevo como a próxima revolução disruptiva, ao nível daquela que vivemos com a introdução da internet no princípio da década de 90.

O conceito em si não é propriamente novo, mas a crescente massificação dos ativos virtuais como as criptomoedas ou, sobretudo, os certificados digitais via blockchain (os NFT) atrelados a peças de criatividade digital (musica, arte, etc.) e que originaram um novo mercado que atingiu valores impensáveis antes da pandemia, trouxeram uma enorme visibilidade pública sobre esta possível transformação económica e social.

Na realidade existe uma opinião crescente de que o Metaverso, um tipo de mundo virtual que tenta replicar a realidade através de dispositivos digitais, será a evolução natural da internet, podendo atingir um valor mínimo de mil milhões de utilizadores até 2030 a nível global em alguns relatórios. Existe um enorme impacte económico positivo, mas também um grande número de questões relacionadas com este admirável meta mundo novo.

O que é exatamente a oferta e qual a dimensão do Metaverso?

As comparações com a fase inicial da internet são inevitáveis. Da mesma forma como, na altura, não era possível definir exatamente o que era e qual a dimensão do impacte económico e social global, nesta fase parece complexo fazer o mesmo exercício para o que chamamos de Metaverso.

O que parece consensual agora é o mesmo que nos primórdios da internet: vai ser algo nunca visto, e impressionante.

Com efeito, esta é provavelmente a evolução natural da nossa crescente relação digital com tudo o que nos rodeia e pode integrar ainda mais as nossas vidas com as plataformas digitais. Isto porque encerra em si o potencial de combinar o mundo físico e digital de uma forma imersiva, através da realidade virtual ou realidade aumentada. Por exemplo, seria teoricamente possível trabalhar em tempo integral na realidade e no Metaverso, num escritório virtual, com as pessoas a interagirem por meio de avatares.

A dimensão da utilização do Metaverso pode afetar praticamente todos os segmentos onde já utilizamos internet, não apenas os jogos online, mas também o comércio online, serviços de media ou publicidade, de saúde, entre outras utilizações, como sejam as comunidades virtuais.

Quanto poderá ser a dimensão económica deste novo mundo?

As expectativas apontam num sentido, será de enorme crescimento. No relatório que a consultora Mckinsey produziu no passado dia 15 de junho, intitulado “Criação de valor no Metaverso”, os autores consideram que num cenário conservador este mercado poderá atingir os cinco biliões de dólares até 2030, com cerca de mil milhões de utilizadores.

No entanto, estes valores podem ser muito superiores. Um outro relatório, produzido pelo Citi GPS, “Metaverse and Money”, indicia que em 2030 poderemos ter cerca de cinco mil milhões de utilizadores a interagir de alguma forma económica com a nova evolução digital, num mercado avaliado em cerca de 13 biliões de dólares. Este impacte é também visível na forma como as sociedades gestoras especializadas em capital de risco se têm vindo a posicionar.

Em 2020, de acordo com os números do relatório da Mckinsey, estas instituições alocaram em financiamentos a projetos nesta área cerca de seis mil milhões de dólares e o investimento global no sector foi de 29 mil milhões de dólares. Este ano, com dados de junho, o investimento global aumentou exponencialmente para mais de 100 mil milhões de dólares.

Quais são as principais utilizações do Metaverso?

A área de gamming, dos jogos online, é considerada como a de maior impacto imediato nos próximos anos. Isto deve-se à componente imersiva da experiência que transporta para os utilizadores. Contudo, o desenvolvimento das tecnologias associadas ao Metaverso deverá fazer evoluir o impacte para outros sectores, o que implicará um peso significativo em quase todas as nossas rotinas diárias. A comercialização, entretenimento, meios de media, o sector da educação e formação profissional, produção e empreendedorismo e os serviços públicos, serão alguns exemplos de áreas onde a evolução disruptiva neste mundo novo digital se poderá fazer sentir.

Esta evolução, a próxima geração da internet, deverá também encapsular uma série de fatores de forma de dinheiro, que poderão continuar a aceitar as formas de dinheiro tradicionais, mas também o dinheiro digital, ou seja, a criptomoeda e as moedas digitais dos bancos centrais, que não eram consideradas no mundo virtual pré-blockchain.

De acordo com o relatório da Mckinsey, num inquérito produzido junto de executivos seniores de grandes empresas, a criptomoeda será uma das três principais tecnologias para a construção do Metaverso, em conjunto com a inteligência artificial e a realidade virtual.

O que precisa ainda de acontecer?

Chegar aos níveis projetados para o nível de mercado exigirá maior investimento em infraestrutura. O ambiente de streaming de conteúdo dentro do Metaverso irá exigir uma melhoria de eficiência computacional significativa, num fator muito superior (o relatório do City GPS fala em mais de mil vezes) aos níveis atuais.

Serão necessários investimentos em áreas como computação, armazenamento, infraestrutura de rede, hardware de consumo e plataformas de desenvolvimento de jogos. Ou seja, no estado atual, a infraestrutura de Internet não é adequada para a construção de um ambiente streaming de conteúdo totalmente imersivo, que permita que os usuários passem facilmente de uma experiência para outra.

Para tornar a visão do Metaverso uma realidade, será necessário um investimento significativo em tecnologia. A chamada tecnologia de baixa latência — o tempo que um sinal de dados leva para viajar de um ponto na Internet para outro e depois voltar — será fundamental para criar uma experiência de usuário mais realista, e garantir o sucesso.

Bottoms’ up: a legislação e regulação são pontos-chave para a sociedade metaverso

A tecnologia não é a única frente que necessita de avanços. Se esta for a evolução natural da Internet, irá atrair o escrutínio dos reguladores e dos formuladores e decisores de políticas públicas.

Todos os desafios recentes do atual enquadramento da Internet e redes sociais e digitais, podem ser ampliados no Metaverso, incluindo moderação de conteúdo, liberdade de expressão e privacidade — aos quais acrescerá um mundo baseado em blockchain, que irá abordar as leis ainda em evolução em torno de temas como as criptomoedas em muitas jurisdições em todo o mundo.

Depois, existem também as considerações de impacte na sociedade e em termos de sustentabilidade. As redes sociais que temos atualmente, assim como a tecnologia que sustenta este nosso mundo cada vez mais digital, já deixaram expostos a olho nu fragilidades e potenciais danos relativos à nossa sociedade.

São evidentes os riscos ligados ao plano da saúde mental provenientes das redes sociais, o cyberbullying ou até a disseminação de desinformação sobre questões vitais, como a pandemia, eleições ou a existência de manipulação de dados. Estes são riscos sérios que podem ser ainda maiores dentro de um Metaverso. Ou seja, até que ponto esta inovação poderá trazer para a sociedade o pior do instinto humano? E de que forma isto pode ser gerido com regulação apropriada?

Por fim, outra importante reflexão está relacionada com os objetivos de sustentabilidade. Os chamados ESG, que incluem critérios de sustentabilidade do ambiente, da integração com os valores de sociedade e de governança corporativa. Por um lado, o Metaverso oferece a tecnologia para que as pessoas se possam conectar de forma social e profissional, independentemente de onde se encontrem fisicamente. Isto poderá levar de facto a uma redução da pegada de carbono, e por isso, deve ser enquadrado no âmbito dos objetivos de sustentabilidade.

Por outro lado, existem todas as preocupações relacionadas com o desenvolvimento de tecnologias e criptomoedas que necessitam de mais suporte para que possam ser, de facto, consideradas como cumpridoras dos critérios ESG de sustentabilidade.

O Metaverso traz consigo, e de forma incontornável, uma grande oportunidade. Mas também traz enormes desafios e implicações para a sociedade. Uma variedade de partes interessadas (stakeholders) terão que definir um conjunto de regras para que esta seja uma evolução suportada em critérios de ética, de segurança e que seja inclusiva.

Questões como privacidade de dados, sustentabilidade, equidade e justiça serão também relevantes para que a transformação digital não seja lesiva para o interesse humano.

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