(Des)igualdade de género (II)

Temos de procurar que os jovens, rapazes e raparigas, interiorizem que não há profissões ou tarefas típicas de homens e mulheres, que ambições e obrigações são direitos e deveres sem escolha de sexo.

No índice de desigualdade do Instituto Europeu para a desigualdade de género, Portugal aparece em 16º lugar com 6,6 pontos (em 100) a menos que o valor médio da União Europeia. Ainda assim, e apesar de continuar muitíssimo mal classificado, sobe 7,6 pontos nos últimos 10 anos, que é uma das maiores subidas a nível europeu.

Neste índice, um dos aspetos mais negativos do comportamento nacional é que as mulheres, em comparação com os restantes países da União, têm uma probabilidade muito maior de cozinhar e fazer tarefas domésticas, todos os dias, durante pelo menos uma hora.

Ora, se um primeiro eixo de intervenção das políticas públicas tem de ser garantir igualdade de oportunidades no acesso a determinadas funções, nomeadamente através das quotas (como defendemos no primeiro artigo sobre este tema), um segundo eixo tem de ser, forçosamente, criar condições para que, fora da profissão, homens e mulheres cumpram os mesmos papéis. E, se a obrigatoriedade de o pai cumprir parte da licença de parentalidade foi, sem dúvida, uma medida importante, não é suficiente.

O equilíbrio, para ser efetivo, tem de ir além do cuidado dos filhos, assegurando que o trabalho (não pago) de apoio a dependentes, de tarefas domésticas, de gestão do agregado, deixem de ser tarefas tipicamente femininas.

Uma das condições necessárias para esta transformação passa por impor a obrigatoriedade de cumprimento dos horários de trabalho. Jornadas de 8 horas deviam ser cumpridas desde o “chão de fábrica” ao CEO, independentemente do género e da profissão. Além da vantagem óbvia de um maior equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal, esta medida garantiria a disponibilidade temporal de homens e mulheres para as tarefas referidas.

Mas há um terceiro eixo de intervenção sem o qual a transformação nunca será efetiva, e que passa por uma mudança radical no comportamento e na atitude da sociedade face aos papeis típicos e aos percursos esperados para homens e mulheres. E se a perspetiva machista que objetifica as mulheres, as pinta como menos aptas para certas profissões e sem jeito para um sem número de coisas às quais não se devem dedicar, é inaceitável, é igualmente grave a critica ao homem que limita a sua permanência no emprego para tratar dos filhos, ou leva ao limite a sua licença parental.

Quando eu era miúda, durante a década de 80, eram ainda vulgares as anedotas mais ou menos racistas, xenófobas ou homofóbicas que eram contadas sem grande pudor nem reserva. Hoje, felizmente, não há qualquer tolerância para esse tipo de humor. Mas, continua a existir uma enorme condescendência para anedotas machistas. É essencial que este ambiente mude, que os nossos filhos tenham a mesma intolerância com uma piada sexista que têm com uma piada racista.

Essa perspetiva tem de ser incorporada em tudo o que se diz, faz, ensina e acredita por forma a que as tarefas familiares e domésticas bem como as oportunidades e escolhas profissionais sejam livres de enviesamento de género. Temos de procurar que os jovens, rapazes e raparigas, interiorizem que não há profissões ou tarefas típicas de homens e mulheres, que ambições e obrigações são direitos e deveres sem escolha de sexo.

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