Desvendar o enigma Aurélia de Souza

Uma mulher livre e uma artista que cultivou a liberdade. Das suas convicções e visão do mundo, sem deixar de ser fruto do seu mundo e tempo. Aurélia de Souza de seu nome, é o cerne da exposição “Vida e Segredo” no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.

Aurélia de Sousa, pintora e fotógrafa portuense que viveu a passagem do século XIX para o século XX, está no epicentro de uma nova exposição “Vida e Segredo de Aurélia de Souza 1866-1922”, patente até 21 de maio de 2023 no Museu Nacional Soares Reis (MNSR), no Porto.

Num primeiro momento, a penumbra da sala que acolhe as obras desta mulher-enigma – e também de outros conterrâneos – serve de ambiente recatado e intimista, que se revela logo depois de o visitante percorrer a linha temporal que enquadra a época e o contexto sociocultural de Aurélia.

Comissariada por Maria João Lello Ortigão de Oliveira, a “Vida e Segredo” desta mulher de rosto impenetrável vai tateando aspetos que a tornam única e que a levaram, desde muito cedo, a ter o seu “quarto só para si”, numa evocação da expressão cunhada pela escritora britânica Virginia Woolf nos anos 1920, referindo-se ao espaço físico e metafórico de que as mulheres precisavam para criar. A escolha de “paredes” com cor – por oposição à ditadura do branco – é algo que apela ao olhar do visitante, e que confere maior destaque às telas nelas suspensas.

De seguida, penetra-se na leitura que fez do seu meio, da cidade e das influências a que foi permeável, mas que nunca impediram o seu traço de trilhar os caminhos que escolheu e que a levariam a conquistar um lugar entre os seus pares. O percurso está dividido em quatro grandes temas e Vidas (o retrato), Espaços (o intimismo), Temas (pluralidade de géneros) e Cores (autorretrato e autorrepresentação), e cruza obras que integram o acervo do MNSR com outras obras de coleções públicas e privadas.

Maria Aurélia Martins de Souza nasceu a 13 de junho de 1866 no seio de uma família de emigrada no Chile. A demanda por melhores condições de vida esteve na origem da partida da sua família e o regresso a Portugal só ocorreu quando o pai entendeu ter as condições financeiras necessárias para esse efeito. A fortuna obtida nas obras dos caminhos-de-ferro chilenos foi o passaporte de regresso à cidade-natal, o Porto, e mais concretamente a uma propriedade com vistas privilegiadas sobre o rio chamada Quinta da China, na zona de Campanhã.

Aurélia cresce rodeada de mulheres desde a morte do pai, em 1875, sob tutela da mãe e na companhia das suas cinco irmãs. O ambiente essencialmente feminino não a levou a refugiar-se num contexto estritamente familiar e isolado do mundo. As aulas de desenho e pintura que manteve até aos 23 anos de idade e as viagens que teve oportunidade de fazer pela Europa deixariam marcas indeléveis.

O inconformismo perante o que era “esperado” de uma mulher na época manifestou-se, desde logo, pela criação do seu ateliê pessoal num quarto da Quinta da China, e pela perseverança com que lutou por ingressar na Academia de Belas Artes do Porto. Como seria expectável, essa conquista fez-se na condição de ir acompanhada, pois era impensável que uma mulher sozinha frequentasse a universidade.

O último ano do curso em Pintura Histórica ficou por concluir. O apelo de Paris foi mais forte. Conseguiu dar asas ao seu anseio e soltar-se de uma sociedade especialmente retrógrada graças ao apoio financeiro das irmãs mais velhas e respetivos maridos. Chegada à “cidade das luzes”, inscreve-se na Academia Julian, que a sua irmã Sofia irá também frequentar dois anos depois. A partir de Paris, as duas irmãs exploraram a Europa com paragens em Roma, Florença, Berlim, Antuérpia e Bruxelas, sem esquecer a região norte de França, particularmente acarinhada pelas duas irmãs.

A pintura flamenga despertou emoções fortes e a sintonia com o impressionismo foi ganhando crescente importância. Não casou, não teve filhos e fez o que poucas mulheres na sua época fizeram, i.e., dedicou-se inteiramente às suas paixões, a pintura e a fotografia. Deu aulas particulares de desenho e pintura e esquivou-se às convenções sociais e familiares, privilégio assaz invulgar até no meio artístico. No regresso ao Porto, alegadamente por ter contraído tuberculose, assumiu funções de ilustradora em diferentes revistas e jornais de cariz literário, não sem antes enfrentar os preconceitos da época. Ou seja, teve de afirmar-se e ser reconhecida naquele que era um ambiente artístico particularmente concorrido.

Entre retrato, cenas familiares, paisagens e naturezas mortas, Aurélia fez-se artista e mulher livre, independente e capaz de afirmar-se na cena artística portuguesa. No centenário da sua morte – ocorrida a 26 de maio de 1922, aos 55 anos – a exposição “Vida e Segredo” é mais uma peça que tenta decifrar o enigma Aurélia de Souza, patente até dia 21 de maio de 2023 no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.

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