Diário da COP27: Da encruzilhada às soluções (IV)

Sim, soluções novamente. O debate não deixa de ser útil, claro está, até porque o problema que o motiva está mais do que vivo. Mas talvez o debate devesse ser mais sobre o porquê de não sairmos do campo das intenções para o da ação.

De COP em COP, vão saindo bonitos manifestos de intenções, novas metas que nunca se chegam a cumprir e, lamentavelmente, é mais do que evidente de que, na verdade, estamos desde há vários anos numa encruzilhada, para conforto de muitos e para infelicidade de todos aqueles que, pela sua localização geográfica, condição socioeconómica vulnerável, por terem assumido como causa própria o combate às alterações climáticas e, claro, os jovens, cujo direito a um ambiente sadio está por demais hipotecado.

Continua-se, nos dias de hoje, a discutir soluções na COP 27. Sim, soluções novamente. O debate não deixa de ser útil, claro está, até porque o problema que o motiva está mais do que vivo. Mas talvez o debate devesse ser mais sobre o porquê de não sairmos do campo das intenções para o da ação.

Se perguntarmos a uma criança sobre o que é o ambiente e como gostariam de ver o seu planeta preservado, estou certa de que as respostas não andarão muito longe daquilo que há mais de 20 anos leva os sucessivos governantes deste mundo a sentar-se à mesa num qualquer ponto do globo para o “blá-blá-blá” do costume.

Com a devida ressalva, para quem abandona estas cimeiras e de facto lança mãos à obra, certo é que continua preso ao papel a criação de um mecanismo de compensação para fazer face aos danos nas populações mais vulneráveis como consequência da ação irresponsável e sedenta de lucro de quem mais polui. E são precisamente os países que mais poluem que continuam a falhar em cumprir, ano após ano, nomeadamente desde o Acordo de Paris, e não contribuir com pelo menos 100 mil milhões de dólares anuais para um “fundo verde” destinado a ajudar os Estados mais desfavorecidos. Questão que o recente eleito Presidente do Brasil, Lula da Silva, fez questão de frisar e se reivindicar!

Só os prejuízos e as perdas económicas – estimados em 30 milhões de dólares – resultantes das cheias e inundações catastróficas no Paquistão são demonstrativas da importância da vigência de um acordo que seja responsável pelos danos sentidos pelas nações impactadas. Se olharmos para os danos causados em 55 dos países mais vulneráveis ao clima as perdas económicas induzidas pelo clima nas últimas duas décadas deste século ascendem a mais de meio trilião de dólares.

E quando, em resultado da crise energética gerada pela invasão russa da Ucrânia que veio pôr a nu a fragilidade do atual modelo económico maioritariamente assente nos combustíveis fósseis, seria de esperar uma viragem e/ou um reforço da aposta em soluções assentes em fontes de energias renováveis, há quem por aí retroceda e anuncie corridas ao carvão ou ao nuclear. Em matéria de medidas de promoção da eficiência energética – também estas apregoadas desde há anos – e de criação de comunidades energéticas de autoconsumo também continuamos a marcar passo.

Defendemos a mudança para um modelo económico circular, mas continuamos em círculos reféns do paradigma linear do extrair-produzir-usar-descartar, com taxas de recuperação e de envio para reciclagem muito aquém do potencial de resíduos que produzimos, desperdiçando o que poderia ser matéria-prima-secundária e procurando levar a sobre-exploração de recursos naturais a outras zonas do planeta.

A listagem poderia continuar… Já não estamos, porém, em tempo de lançar aqui e acolá medidas avulsas, em jeito de penso rápido, é preciso colocar a política ambiental e climática no topo da hierarquia da ação governativa para que sejam o fio condutor das políticas públicas, sob pena de o único caminho de saída da atual encruzilhada ser o da destruição da vida no planeta tal como a conhecemos.

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