Diácono Remédios existe e quer lutar pelas “mulheres de bem”

Só uma resposta cabal e inequívoca é que pode suster uma eventual viagem ao tempo em que o fascismo representava a mulher como reprodutora, dona de casa e sem voz própria.

Era uma vez um gabinete instalado na Administração Central dos Sistemas de Saúde (ACSS) que se lembrou de condicionar o aumento de prémios dos médicos de família à liberdade sexual e reprodutiva das mulheres.

Dirigido por Diácono Remédios, ficámos a saber que o mesmo gabinete entende que as utentes (mulheres), além de serem incentivadas a não interromperem uma gravidez indesejada, devem ser julgadas – através da penalização dos seus médicos – pela eventual contração de doenças sexualmente transmissíveis.

O que esta proposta nos faz lembrar é o regresso ao passado e à divisão entre as “meninas bem e malcomportadas”, numa avaliação e condenação públicas permanentes sobre cada mulher. “Ó valha-nos Deus”, diria o diácono, “não havia necessidade”. E não havia mesmo.

O que se trata é a proposta de um retrocesso evidente sobre os direitos reprodutivos e sexuais arduamente conquistados nas últimas décadas, por um lado, e a tentativa da volta ao tempo do “outro senhor”, em que as mulheres eram propriedade dos homens, a quem tinham de entregar o controlo do volume reprodutivo do seu próprio corpo.

Que gabinete será este que coloca, novamente, o ónus de uma qualquer ideia de “produtividade” sobre a ação das mulheres?

Só podemos concluir que, com a anuência da Direção Geral da Saúde – porque lhe dá cobertura –, o Diácono Remédios existe mesmo e está a coordenar o gabinete de inovação para as Unidades de Saúde Familiar (USF-B) na ACSS.

A decisão sobre a proposta altamente conservadora está nas mãos do Ministério da Saúde, liderado por uma mulher, de quem se espera o bom senso perdido pelo gabinete do dito diácono e a recusa absoluta de tal proposta machista, retrógrada e misógina.

Só uma resposta cabal e inequívoca é que pode suster uma eventual viagem ao tempo em que o fascismo representava a mulher como reprodutora, dona de casa e sem voz própria e muito menos pública.

Não, caro Diácono Remédios, não precisamos que lute por nós, mulheres, nem que imponha aos médicos que cuidem de cuidar do cuidado que temos com os nossos corpos.

Nossos corpos. Nossas decisões.

Obrigada pela atenção,

Sónia de Sá

Mulher de bem, sim, mas com as decisões que toma – em que quer continuar a tomar – sobre o seu corpo e a sua liberdade sexual.

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