Diário da COP27: Afinal quem são os adultos na sala? (II)

As expectativas face ao que possa sair da COP27 podem não ser as mais altas, mas ao ver a mobilização dos jovens só posso sentir esperança num futuro em que, mais cedo do que tarde, os responsáveis políticos vão ter de os ouvir.

O segundo dia de mais uma semana da COP27 começa marcado pelas manifestações que continuam a acontecer, não apenas em Portugal, mas também noutros pontos do mundo. Não podemos deixar de refletir sobre o contraste entre as manifestações que têm lugar livremente em Lisboa e os apelos que surgem no Egito, em prol dos direitos humanos, incluindo o direito à manifestação. Apesar de vivermos num mundo cada vez mais globalizado, os contrastes continuam a acentuar-se, inclusive em resultado da crise socioeconómica de “contornos energéticos”.

E no que diz respeito ao combate à crise climática, não é exceção. A crise energética global espoletada pela invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin veio – ou deveria ter vindo – exacerbar o estado de alerta da comunidade internacional face à fragilidade e insustentabilidade do atual sistema energético global e, consequentemente, face à vulnerabilidade das nossas democracias. O sinal de alerta acionado um pouco por todo o mundo deveria conduzir-nos, mais do que nunca, a uma tomada de ação climática mais robusta, efetiva e, sobretudo, mais resiliente aos fatores de contexto, de forma a vermos mitigados a prazo os efeitos das alterações climáticas nos mais vulneráveis e, numa ótica de justiça, nas gerações vindouras.

Contudo, os sinais que nos têm chegado em resposta à crise energética são contraditórios, de tal modo que, de forma deveras preocupante, aquela que poderia constituir “a oportunidade” para uma transição verde, poderá vir a resultar num grave e insuperável retrocesso em matéria de política climática. Com efeito, como reação ao desequilíbrio e instabilidade gerados pela guerra, num quadro geopolítico que historicamente era já de si sensível, muitos países voltaram a considerar uma corrida ao carvão (ainda que no curto prazo) com receio de que a redução do consumo/disponibilidade de gás russo pudesse comprometer a satisfação das necessidades energéticas no inverno.

De facto, muitos países da União Europeia (UE), como Alemanha, França, Itália e Espanha, estão a prolongar a vida útil de centrais de carvão que estavam até há pouco tempo destinadas a encerrar, a reabrir outras que já haviam fechado portas ou a aumentar o número de horas de laboração das que se encontram em funcionamento. Em resultado, o consumo de carvão na UE terá aumentado 10% nos primeiros seis meses deste ano, impulsionado pela procura de carvão do sector da eletricidade, e neste segundo semestre do ano a tendência deverá continuar a ser de crescimento, incluindo para o carvão térmico.

Em contrapartida, no seu relatório anual, a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla inglesa) destaca medidas de política pública, como seja o REPowerEU, no seio da UE, o programa de Transformação Verde do Japão ou o anúncio por parte de países como a Índia de metas mais ambiciosas de energia limpa. Medidas estas que, no seu conjunto, podem ajudar a impulsionar o investimento global em energia limpa para mais de dois biliões de dólares por ano até 2030, i.e., um aumento superior a 50%.  Para a IEA, o aumento do recurso ao carvão será, por isso, à luz destas medidas, temporário. Resta, porém, saber o preço para o cumprimento da meta de travar as alterações climáticas e limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius, num combate para o qual já partimos muito atrasados.

Num mundo em que o crescimento do PIB tem estado fortemente acoplado ao uso global de combustíveis fósseis desde o início da Revolução Industrial no século XVIII, inverter esta tendência será um momento crucial na história da energia e devem ser encontradas soluções, aliando o avanço tecnológico à luta ecológica. Enquanto as vozes dos nossos jovens se fazem ouvir cada vez mais alto e com maior frequência contra aquela que dizem o hipotecar do seu futuro, e numa altura em que se inicia no nosso país um processo de revisão constitucional, esta poderia ser uma oportunidade de ouro para vincular o compromisso do país com o combate à crise climática, fazendo deste um desígnio imune a qualquer que venha a ser a cor partidária de futuros governos, dada a crescente pressão sobre o relógio climático.

As expectativas relativamente ao que possa sair da COP27 podem não ser as mais altas, mas ao ver a mobilização dos jovens, um exercício da sua cidadania e indignação, fruto da sua consciência de que, se nada fizermos, são eles que vão herdar o planeta como o deixarmos, só posso, tal como Jane Goodall, sentir esperança num futuro em que mais cedo do que tarde – espero – os responsáveis políticos vão ter de os ouvir! Pois, afinal, é a nossa casa que continua a arder.

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