Diário da COP27: Condenados à extinção? (III)

Se falharmos na fórmula e no tempo de ação, estaremos só a acelerar o passo em direção a uma tempestade perfeita de alterações climáticas, perda de biodiversidade e múltiplas formas de desnutrição num mundo em que a população tende a aumentar.

Ano após ano, os holofotes recaem sobre o volume de emissões de gases com efeito de estufa que continuamos a enviar para atmosfera e para a necessidade de travar o aquecimento global.

Marginalmente lá se vai falando da biodiversidade, da necessidade de proteger os habitats e as espécies animais, de reduzir a desflorestação, de proteger os oceanos, entre tantos outros fatores que contribuem para aquele que é já considerado o sexto declínio massivo de biodiversidade, o único provocado pela ação humana – a extinção antropocénica. E é a perda de biodiversidade e alterações climáticas que hoje dominam os trabalhos na COP27.

Nem sempre temos tido, porém, consciência e, sobretudo, o comportamento responsável e equilibrado perante aquele que é o enorme privilégio de partilhar o planeta com uma multiplicidade de espécies. Acabamos assim por viver num estranho paradoxo, em que condenamos à extinção as mesmas espécies que tanto nos fascinam.

Os dados não são consensuais, por que de difícil estimativa, contudo, calcula-se que cerca de 150 a 200 espécies vegetais e animais extinguem-se em média todos os dias. No fim de mais um dia de COP27, terão desaparecido 1950 a 2600 nestas duas semanas em que mais uma vez o mundo se reúne para discutir o inevitável e que ainda assim é tantas vezes adiado.

Cerca de 137 dessas espécies que se extinguem diariamente são vítimas da desflorestação. A poluição dos oceanos, o aumento do tráfego marítimo que perturbam a dinâmica das espécies marinhas, a pesca e a agricultura intensivas e superintensivas, e o aumento das áreas artificializadas somam-se às múltiplas causas que têm levado a este abrupto declínio da biodiversidade.

As alterações climáticas, uma das questões mais críticas do nosso tempo, têm também impactos na biodiversidade, mais evidentes do que nunca. As espécies animais e vegetais estão ameaçadas de extinção enquanto os ecossistemas estão a perder resiliência, resistência e estabilidade.  Por outro lado, por via de um nexo causal, a perda da biodiversidade aumenta os impactos das alterações climáticas e mina as iniciativas de mitigação e/ou adaptação.

É tempo de descodificar e avaliar este complexo nexo, para que esta relação bidirecional possa ser compreendida e resultar em estratégias globais eficazes para lidar com sucesso com a crise climática e com a perda de biodiversidade, e, em última análise, assegurar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A espécies como o Rinoceronte Branco do Norte, considerados extintos em 2018, ou a Ibex dos Pirenéus, considerada extinta na natureza em 2000 devido à caça e à incapacidade de competir com a camurça selvagem ou com o gado por alimento, podem muito em breve juntar-se tantas outras que figuram na Lista Vermelha da UICN já em 2022.

Travar o declínio da biodiversidade deve convocar por igual a comunidade internacional, que tem de ser mais ambiciosa nos compromissos assumidos e, sobretudo, na ação. Precisamos de um pacto de preservação das espécies, de um novo paradigma no que respeita à atividade humana e à forma desmesurada como exploramos e destruímos os habitats. Se falharmos na fórmula e no tempo de ação, estaremos só a acelerar o passo em direção a uma tempestade perfeita de alterações climáticas, perda de biodiversidade e múltiplas formas de desnutrição num mundo em que a população tende a aumentar.

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