Diário da COP27: O futuro tem de ser sustentável (V)

Ano após ano, enquanto assistimos a manobras e táticas para empatar a tomada de ação, os eventos climáticos extremos continuam a fazer sentir a sua fúria. Urge combater esta resistência, ou inércia, à mudança.

Restam algumas horas para o fim dos trabalhos de mais uma COP Clima, sob a qual pairou o clima de insegurança gerado pela guerra e a preocupação por parte dos países quanto à segurança energética.

Apesar de um ou outro avanço que se foi conseguindo ao longo dos anos, nesta e noutras sedes, desde a ratificação histórica do Protocolo de Quioto, a sensação com que saio de Sharm-el-Sheik é a de que não avançámos o que deveríamos e poderíamos no combate para travar o aumento da temperatura média global nos 1,5ºC. E ainda que tenha sido evitado um retrocesso quanto às metas de redução das emissões de gases com efeito de estufa, ainda há muito a fazer em matéria de descarbonização da economia.

Nestes dias, falou-se de biodiversidade, de ação cívica, de energia, de mecanismos financeiros para fazer face aos danos das alterações climáticas, de água e também de soluções. Exemplos muito positivos foram apresentados com origem em diversas partes do globo.

Não podemos assim deitar por terra os esforços e as expectativas de quem, como os mais vulneráveis ou os mais jovens, os cientistas ou os ambientalistas, tem tanto direito a um futuro no planeta como as gerações precedentes. Bem sentimos já o impacto da guerra na Europa, mas a inflação e a guerra também se combatem com a transição verde. Não pode a guerra servir de desculpa “a maus alunos” ou a quem põe os interesses económicos à frente de direitos humanos e ambientais.

Não só não podemos deitar a toalha ao chão no combate às alterações climáticas, como é mais do que tempo de os países desenvolvidos assumirem os seus compromissos em matéria de adaptação perante os países e populações mais vulneráveis aos fenómenos climáticos cada vez mais extremos e frequentes.

O apoio aos países em desenvolvimento para melhor poderem enfrentar os impactos climáticos, sob a forma de financiamento de perdas e danos, é uma parte essencial do princípio consagrado na Convenção das Nações Unidas, segundo a qual os países que mais contribuíram para a crise climática têm uma maior responsabilidade.

No entanto, 30 anos, 27 COP e múltiplos workshops e diálogos mais tarde, nenhum mecanismo de financiamento para fazer face a perdas e danos foi acordado. Enquanto ano após ano aquilo a que assistimos é a manobras e táticas para empatar a tomada de ação, os eventos climáticos extremos continuam a fazer sentir a sua fúria, resultando em perdas generalizadas e danos para as comunidades que atingem.

Urge combater esta resistência, ou inércia, à mudança. E o sinal de que o tempo é de mudança tem de vir da própria organização da COP, que, no Egito, ficou muito aquém no cumprimento ela própria de princípios de basilares de sustentabilidade – ao ficar marcada por deficientes soluções de separação de resíduos ou por opções nem sempre as mais amigas do ambiente em termos de materiais, refeições ou a própria localização do local do evento. Seja qual for o futuro, da COP e do Planeta, uma coisa é certa: tem de ser mais sustentável e tem de ser desde já!

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