‘Digital divide’

A influência perdida pelos media tradicionais, em que as pessoas já não confiam, foi transferida directamente para os novos meios, destinados a criar tribos e não a servir a democracia.

O segundo título consecutivo desta crónica em inglês em tão pouco tempo não é uma coincidência. Apesar de vivermos, cada um de nós, na sua confortável e confortante bolha – e por causa disso mesmo – é imperioso redobrar a atenção e afinar o olhar. É isso que me proponho fazer hoje, já medianamente refeito do trauma Trump e ainda expectante quanto à surpresa Brexit.

Não me interessa, por uma vez, analisar ou escalpelizar as causas das coisas sob o ponto de vista sociológico, psicológico ou económico – há muito quem o faça, com competência e qualidade. Importa-me, desta vez, um algoritmo. Apenas um algoritmo. O algoritmo que nos condiciona o pensamento, que nos direcciona o olhar e que, reconfortando-nos todos os dias nas redes sociais, continua a servir-nos os pratos que gostamos de comer, a sugerir-nos as músicas que gostaremos de ouvir e a libertar as fragrâncias afins daquelas que estão contidas nos perfumes que já usamos.

Esta é a verdade, tão consabida quanto desprezada: os facebooks e os googles fornecem-nos aquilo a que alguns chamam a nossa “individualidade digital”, continuamente aprimorada pelos nossos movimentos através da WWW e, em particular, através das redes sociais onde nos inserimos e que nos vamos habituando a encarar ora como árbitro justo e objectivo, ora como matchmaker; aqui como conselheiro de confiança, além como oráculo com poderes divinatórios. Este poderoso mecanismo de reprodução e amplificação de um “preconceito de informação” (data bias), que disponibiliza ao leitor aquilo que sabe que ele está predisposto a ler, a clickar “gosto” e a gastar tempo a analisar, aliado às propriedades reconhecidamente aditivas que hoje se apontam às redes sociais, tem sobre os processos políticos uma influência nada menos que determinante, na medida em que afunda cada vez mais os networkers nas suas próprias bolhas de conforto.

A matriz que oferece para leitura da realidade fecha-se então cada vez mais, consentindo cada vez menos espaço livre para pensamentos divergentes ou alargamento de hipóteses alternativas àquelas que os sujeitos passivos do algoritmo definiram como a sua própria ortodoxia. O que percepcionamos como realidade não passa, pois, de uma fatia limitada da realidade, cuja caixa-de-ressonância está nas redes sociais. Barack Obama usou durante a sua campanha para as presidenciais de 2009 um algoritmo chamado “optimizer”, destinado a reconhecer e catalogar nas redes sociais as opiniões potencialmente favoráveis à sua eleição, para melhor apontar acções de propaganda. Percebeu com muito avanço que a influência perdida pelos media tradicionais – em que as pessoas já não confiam – foi transferida directamente para os novos meios, destinados a criar tribos e não a servir a democracia. Desta maneira fomos e somos seduzidos pela constante informação anti-Trump e arregimentados alegremente para a tribo anti-Trump. Bem-vindos, pois, à tribo anti-Trump.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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